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Nuvens de Bruxelas

O Conselho Europeu deixou duas mensagens claras, ambas erradas e ambas sombrias para as economias e as sociedades da Europa.

Os Governos europeus reconheceram o que era evidente: a teimosia em não aceitar a reestruturação da dívida grega não era cegueira, era mesmo estratégia deliberada de provocação da bancarrota. E a reestruturação aí está, depois de tantas juras de que nunca aconteceria. Bruxelas entrou no caminho da razão? Não, não entrou. Porque cedendo aqui, manteve o essencial da sua fidelidade à ortodoxia penalizadora das economias. É verdade que os juros deixaram de estar num patamar de agiotagem declarada. É verdade que os prazos de pagamento da dívida foram alargados. Mas o Conselho Europeu deixou duas mensagens claras, ambas erradas e ambas sombrias para as economias e as sociedades da Europa.

A primeira é a de que os programas de austeridade não serão beliscados. O que Bruxelas nos está a dizer é que a recessão se mantém como horizonte desejado para as nossas economias e que as privatizações baratas dos bens comuns se mantêm como receita. Emagrecer a parte da economia que se relaciona com a grande maioria das pessoas e engordar até à obesidade mórbida os que mais têm – eis o credo desta governação económica da União Europeia. Empobrecer as sociedades e retirar pressão aos direitos e aos salários é o seu programa político. Não fossem os portugueses acreditar que finalmente a União Europeia tinha reconhecido a necessidade de respirar de quem trabalha, Passos Coelho apressou-se a advertir que não haverá abrandamento do programa de austeridade do Governo. “Antes pelo contrário”, sublinhou. Os boys da direita com guia de marcha para as prebendas públicas e os titulares de dividendos isentos do imposto que vai subtrair metade do subsídio de Natal aos trabalhadores e à classe média podem dormir descansados. Nada se alterará. A Europa assim manda.

A segunda mensagem é a de que, aceite para a Grécia, esta reestruturação não será aceite para mais nenhum Estado membro. Novo erro. Porque mostra que Bruxelas insiste em segmentar uma crise que é europeia e não de cada país. A lógica traduzida na insistência em que “a Irlanda não é a Grécia”, “Portugal não é a Irlanda” ou “Itália e Espanha não são Portugal” foi sempre uma lógica armadilhada. À Esquerda cabe desmontar o engodo nacionalista desta lógica e contrapor-lhe que, diante dos ataques sem fronteiras contra os salários e os direitos, nós somos portugueses, mas somos também gregos, italianos ou irlandeses. E, já agora, também somos alemães.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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