George Orwell escreveu 1984 em pleno pós II Guerra Mundial como um aviso. Um aviso não apenas contra ditaduras explícitas como o estalinismo ou os vários fascismos que ainda grassavam pelo mundo na altura, mas contra qualquer forma de poder que manipule a linguagem, a memória e a informação para dominar o pensamento coletivo. No entanto, a distopia que Orwell imaginou já não é, hoje em dia, um simples aviso. É na realidade um diagnóstico. O mundo não precisou de um Grande Irmão com cartazes nas paredes; bastou um ecrã e uma linguagem corrompida para transformar o real em impostura. O moderno totalitarismo não se impõe pela força, mas sim pela erosão do sentido das palavras.
A Novilíngua (Newspeak) servia, no romance, para impedir o pensamento livre. Se uma palavra deixasse de existir, a ideia que ela representava também desaparecia. O que era “liberdade” tornou-se “crime de pensamento”. O que era “verdade” passou a “facto alternativo”. Está a soar familiar? Vivemos rodeados de expressões que escondem, em vez de revelar. Um massacre de crianças é uma “guerra preventiva”; uma invasão é uma “operação de paz”. A censura chama-se “moderação de conteúdo”. As mortes civis são “danos colaterais”. A própria mentira já deixou de o ser. É agora “mais uma narrativa”. O mecanismo é o mesmo de Orwell: quem controla a linguagem, controla a realidade. E quem controla a realidade, controla as consciências.
Mas há um segundo conceito tanto ou ainda mais atual: o Duplipensar (Doublethink), a habilidade de defender contradições sob o disfarce da coerência. É o mundo onde uma Nobel da Paz pede o bombardeamento do seu país. Onde governos dizem defender a liberdade e perseguem quem protesta contra o massacre de crianças. Onde movimentos falam em “defesa da vida” e espalham ódio contra os pobres, os migrantes ou as mulheres. Onde um político pode dizer, na mesma frase, “sou um democrata mas defendo uma ditadura para o país” (de preferência que fosse três vezes pior que a anterior). Onde um partido pode arrogar-se o arauto da liberdade de expressão e, portanto, “que ninguém se atreva a criticar-nos”. E aquilo a que Orwell chamava loucura institucionalizada passa a ser apenas pragmatismo.
Poucas instituições dominaram esta arte como a religião. Desde há séculos que as igrejas transformam as palavras em ferramentas de poder, dobrando-lhes o sentido conforme as suas conveniências. O “amor ao próximo” coexiste com a perseguição absurda a quem ama de outros modos. A “caridade” substitui a justiça social. A “humildade” é apregoada a partir de gigantes catedrais, em altares cobertos de ouro e joias, com o único e exclusivo propósito de manter os pobres resignados. A mesma fé que prega a paz benze canhões e a coroa de ditadores, sempre em nome de um Deus absolutamente imoral e despótico. É o Duplipensar teológico: proclamar o perdão enquanto se alimenta o medo, exaltar a vida enquanto se condena o corpo, falar em liberdade enquanto se exige obediência cega. A religião foi a primeira a dominar a Novilíngua, essa arte de fazer o verbo servir deus e o poder terreno ao mesmo tempo. Orwell veria nisso uma antecâmara do totalitarismo moderno: a colonização da consciência através da linguagem sagrada.
O resultado é uma inversão moral em cadeia. “Liberdade” passou a significar o direito de odiar e propagar o ódio. “Democracia” passou a significar obediência e resignação. “Segurança” é sinónimo de vigilância e intolerância. O discurso político tornou-se uma coreografia de eufemismos e a impressão que fica é que, como diz o povo, “quanto mais falam, menos dizem”. O império do eufemismo banaliza a violência e desumaniza o outro. Já não há vítimas, há “danos colaterais”. Como se quem os inflige não soubesse de antemão quem são os seus alvos nem previsse o sofrimento que causa. Já não há refugiados, há “fluxos migratórios”. Como se as vidas humanas fossem correntes de água a gerir num mapa e não pessoas com nome, rosto e história. Já não há mortos, há “baixas inevitáveis”. Como se a inevitabilidade não fosse de facto uma escolha. Já não há trabalhadores, há “colaboradores”. Como se a exploração fosse uma parceria e o salário uma dádiva. Tudo se dissolve numa linguagem que desinfeta a dor, apaga a culpa e transforma a injustiça em gestão.
Orwell escreveu: “Se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também pode corromper o pensamento.” E é aqui que chegámos. Um mundo em que muito se fala e onde o pensamento é cada vez mais limitado. Resgatar o sentido das palavras tornou-se um ato político urgente e indispensável. Dizer “paz” e realmente querer dizer paz é hoje um ato subversivo. Dizer “liberdade” e aceitar que ela não nos serve só a nós é revolucionário. Num tempo em que o vocabulário serve para disfarçar a crueldade e dourar a mentira, devolver às palavras o seu sentido tornou-se um gesto de resistência moral. Chamam-lhe ingenuidade, é claro, mas será este o rumo que separará fundamentalmente o humano da I.A., a verdade da propaganda. Enquanto a palavra “paz” puder significar guerra e o “amor” puder justificar o ódio, estaremos muito mais perto de Oceânia do que julgamos.