A Novilíngua do nosso tempo

porGabriel Coelho

08 de novembro 2025 - 11:23
PARTILHAR

O mundo não precisou de um Grande Irmão com cartazes nas paredes; bastou um ecrã e uma linguagem corrompida para transformar o real em impostura. O moderno totalitarismo não se impõe pela força, mas sim pela erosão do sentido das palavras.

George Orwell escreveu 1984 em pleno pós II Guerra Mundial como um aviso. Um aviso não apenas contra ditaduras explícitas como o estalinismo ou os vários fascismos que ainda grassavam pelo mundo na altura, mas contra qualquer forma de poder que manipule a linguagem, a memória e a informação para dominar o pensamento coletivo. No entanto, a distopia que Orwell imaginou já não é, hoje em dia, um simples aviso. É na realidade um diagnóstico. O mundo não precisou de um Grande Irmão com cartazes nas paredes; bastou um ecrã e uma linguagem corrompida para transformar o real em impostura. O moderno totalitarismo não se impõe pela força, mas sim pela erosão do sentido das palavras.

A Novilíngua (Newspeak) servia, no romance, para impedir o pensamento livre. Se uma palavra deixasse de existir, a ideia que ela representava também desaparecia. O que era “liberdade” tornou-se “crime de pensamento”. O que era “verdade” passou a “facto alternativo”. Está a soar familiar? Vivemos rodeados de expressões que escondem, em vez de revelar. Um massacre de crianças é uma “guerra preventiva”; uma invasão é uma “operação de paz”. A censura chama-se “moderação de conteúdo”. As mortes civis são “danos colaterais”. A própria mentira já deixou de o ser. É agora “mais uma narrativa”. O mecanismo é o mesmo de Orwell: quem controla a linguagem, controla a realidade. E quem controla a realidade, controla as consciências.

Mas há um segundo conceito tanto ou ainda mais atual: o Duplipensar (Doublethink), a habilidade de defender contradições sob o disfarce da coerência. É o mundo onde uma Nobel da Paz pede o bombardeamento do seu país. Onde governos dizem defender a liberdade e perseguem quem protesta contra o massacre de crianças. Onde movimentos falam em “defesa da vida” e espalham ódio contra os pobres, os migrantes ou as mulheres. Onde um político pode dizer, na mesma frase, “sou um democrata mas defendo uma ditadura para o país” (de preferência que fosse três vezes pior que a anterior). Onde um partido pode arrogar-se o arauto da liberdade de expressão e, portanto, “que ninguém se atreva a criticar-nos”. E aquilo a que Orwell chamava loucura institucionalizada passa a ser apenas pragmatismo.

Poucas instituições dominaram esta arte como a religião. Desde há séculos que as igrejas transformam as palavras em ferramentas de poder, dobrando-lhes o sentido conforme as suas conveniências. O “amor ao próximo” coexiste com a perseguição absurda a quem ama de outros modos. A “caridade” substitui a justiça social. A “humildade” é apregoada a partir de gigantes catedrais, em altares cobertos de ouro e joias, com o único e exclusivo propósito de manter os pobres resignados. A mesma fé que prega a paz benze canhões e a coroa de ditadores, sempre em nome de um Deus absolutamente imoral e despótico. É o Duplipensar teológico: proclamar o perdão enquanto se alimenta o medo, exaltar a vida enquanto se condena o corpo, falar em liberdade enquanto se exige obediência cega. A religião foi a primeira a dominar a Novilíngua, essa arte de fazer o verbo servir deus e o poder terreno ao mesmo tempo. Orwell veria nisso uma antecâmara do totalitarismo moderno: a colonização da consciência através da linguagem sagrada.

O resultado é uma inversão moral em cadeia. “Liberdade” passou a significar o direito de odiar e propagar o ódio. “Democracia” passou a significar obediência e resignação. “Segurança” é sinónimo de vigilância e intolerância. O discurso político tornou-se uma coreografia de eufemismos e a impressão que fica é que, como diz o povo, “quanto mais falam, menos dizem”. O império do eufemismo banaliza a violência e desumaniza o outro. Já não há vítimas, há “danos colaterais”. Como se quem os inflige não soubesse de antemão quem são os seus alvos nem previsse o sofrimento que causa. Já não há refugiados, há “fluxos migratórios”. Como se as vidas humanas fossem correntes de água a gerir num mapa e não pessoas com nome, rosto e história. Já não há mortos, há “baixas inevitáveis”. Como se a inevitabilidade não fosse de facto uma escolha. Já não há trabalhadores, há “colaboradores”. Como se a exploração fosse uma parceria e o salário uma dádiva. Tudo se dissolve numa linguagem que desinfeta a dor, apaga a culpa e transforma a injustiça em gestão.

Orwell escreveu: “Se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também pode corromper o pensamento.” E é aqui que chegámos. Um mundo em que muito se fala e onde o pensamento é cada vez mais limitado. Resgatar o sentido das palavras tornou-se um ato político urgente e indispensável. Dizer “paz” e realmente querer dizer paz é hoje um ato subversivo. Dizer “liberdade” e aceitar que ela não nos serve só a nós é revolucionário. Num tempo em que o vocabulário serve para disfarçar a crueldade e dourar a mentira, devolver às palavras o seu sentido tornou-se um gesto de resistência moral. Chamam-lhe ingenuidade, é claro, mas será este o rumo que separará fundamentalmente o humano da I.A., a verdade da propaganda. Enquanto a palavra “paz” puder significar guerra e o “amor” puder justificar o ódio, estaremos muito mais perto de Oceânia do que julgamos.

Gabriel Coelho
Sobre o/a autor(a)

Gabriel Coelho

Professor de Matemática e Ciências Naturais, co-criador do podcast Quarteto dos Três Ateus Miguel e Gabriel
Termos relacionados: