A nova língua política

porPedro Amaral

12 de dezembro 2023 - 20:36
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Estamos no meio de duas crises políticas, uma nacional e uma açoriana. O espetro da corrupção, dos casos e dos casinhos, vai assombrar a agenda como combustível para demagogia e não como discussão sobre propostas para aumentar a transparência e as boas-práticas públicas.

Isto não está bonito: estamos no meio de duas crises políticas, uma nacional e uma açoriana. O espetro da corrupção, dos casos e dos casinhos, vai assombrar a agenda como combustível para demagogia e não como discussão sobre propostas para aumentar a transparência e as boas-práticas públicas.

Outro dia, apareceu-me um vídeo no TikTok da JP de Lisboa, de janeiro deste ano. Tratava-se de um excerto do espaço de comentário onde têm a palavra Cecília Meireles e Mariana Mortágua. Em letras garrafais, sempre no vídeo, a JP afirmava «Cecília Meireles desconstrói a demagogia de Mariana Mortágua e do BE».* Fui ver por curiosidade. Falavam de habitação, Mortágua a explicar porque a construção não é necessariamente uma solução. Posto isso, julguei que a desconstrução fosse a demonstração por parte de Meireles como tal ideia é falaciosa. Mas não. A ex-deputada do CDS-PP não aponta qualquer contra-argumento sobre a questão, escolhe mostrar-se insultada por Mortágua a associar à defesa de «interesses», acusando-a de demagogia. Isto é desadequado por duas razões: toda a gente tem interesses e Mortágua não acusou Meireles de estar a ganhar nada com a sua posição. É triste ver uma reação deste tipo num dos quadros mais capazes do CDS, e ainda mais triste a JP considerar que este excerto em algo desconstrói a demagogia.

Na verdade, o vídeo é um excelente exemplo de demagogia. Em tempos recheados de populismo e demagogia temos tendência em confundir estes dois conceitos. A demagogia é a manipulação com fins políticos. O populismo é a defesa de um «nós» e «eles». Este vídeo é demagogo, porque está apresentado de forma a que a pessoa tenha interesse em clicar, acabando a ver uma pessoa a falar num tom de voz assertivo e elevado, sem conteúdo. Isto leva-me à mensagem principal que queria aqui trazer: a novilíngua na comunicação política. Ainda antes disso, dizer que a posição de Mariana Mortágua, ao afirmar a existência de interesses de um grupo económico, enquadra-se numa perspetiva populista, por ser uma oposição entre interesses de dois grupos (normalmente uma grande maioria em oposição a uma pequena minoria**). Este populismo económico não deve ser confundido por demagogia, uma vez que não se socorre de mentiras e tem conteúdo político.

Sobre a novilíngua, lembrei-me fazer o exercício de ir ao Youtube do CHEGA: ARRASA, EMOCIONANTE, VERGONHA, ÉPICO, FARSA, FRAUDE, MARIMBAR, TERRORISTAS. Isto tem de ser uma nova língua, porque em português não significa nada. É conteúdo desprovido de significado, onde ficamos minutos a ouvir uma pessoa aos berros.

Eu até comecei por conceber este artigo como glossário, mas é impossível, porque as palavras pura e simplesmente só existem em forma, para captar a atenção, são usadas indiscriminadamente.

Notas:

* Não deixa de ser curioso o facto das minhas pesquisas terem uma clara tendência à esquerda e o algoritmo do TikTok e do Instagram mostram-me conteúdo de direita. O Facebook é um caso mais extremo, estando de vez em quando a mostrar e a sugerir uma página de apoio ao Estado Novo – tive de a bloquear para deixar de aparecer no meu feed. A agenda de quem controla o algoritmo está forte em Portugal, tenhamos todos muito cuidado.

** Há um populismo extremamente perigoso, aquele que se socorre na vertente social, atacando minorias como aquelas sexuais, étnicas, raciais,… O racismo e a xenofobia usam muito esta oposição entre «pessoas de bem» e aquela «minoria que tem de ser combatida», como os imigrantes ou os ciganos.

Pedro Amaral
Sobre o/a autor(a)

Pedro Amaral

Natural da ilha de Santa Maria, estuda Filosofia no Porto. Membro da Comissão Coordenadora Regional dos Açores do Bloco de Esquerda.
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