Expressões como "nossa França", "pátria", "imigração regulada", entre outras pérolas nacionalistas foram o pão-nosso de cada dia durante meses, alimentando a necessidade de um país amestrado e conduzido pelo tríptico moralidade - respeito - autoridade.
Este projecto de sociedade, radica ainda numa preocupante visão de uma França ancorada a um proteccionismo económico retrógrado e passadista.
Inquietante é também a recusa em voltar a referendar um tratado constitucional, que revela no implícito o que Sarkozy quer que seja a União Europeia, um directório plenipotenciário das ditas "grandes nações", uma mesa redonda de amigalhaços, onde os cidadãos e as populações não têm lugar a não ser que estejam devidamente amestradas.
À esquerda a resposta não esteve à altura
O fenómeno Ségolène foi o da insipiência. Falta de proposta, pouca concretização, alguns chavões centristas, dissertações no âmbito de uma social-democracia esgotada. Parece que não convenceu. Diziam os entrevistados dos subúrbios parisienses que muitos dos votos em Ségolène não eram mais do que votos anti-Sarkozy. Mas não chegaram.
Longe já estão os tempos em que se falava de uma figura unitária de esquerda para as presidenciais baseada na experiência vitoriosa do não ao tratado constitucional. Os sectarismos falaram mais alto. O PCF culpou a LCR. A LCR culpou o PCF. Ambos apresentaram candidaturas próprias. Buffet acabou com um resultado vergonhoso de menos de 2% e Besancenot ficou pouco acima da linha de água com os seus 4,2%. Dos outros dois candidatos, LO e alter-mundialistas, resultados insignificantes.
Depois de tamanha derrota, há que reagir, procurar respostas na cidadania e no activismo social, desconstruir o medo sectário e aproximar posições, fazendo convergir o essencial em detrimento do acessório. Esse é o sinal que a mobilização popular, o naufrágio do projecto corporizado pelo PSF, a perda de votos e de influência do PCF e o fortalecimento da LCR deram à esquerda no desenlace deste processo eleitoral.
Natasha Nunes
André Beja