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Notas sobre a crise política açoriana

As últimas semanas significaram que os Açores mergulharam num pântano político por responsabilidade total do governo regional de direita, do PSD, CDS e PPM e dos partidos que garantiram a sua existência e governação até aqui, CH e IL.

1. A crise política que se poderá concretizar [concretizou-se mesmo, após a publicação original do artigo] com o chumbo do orçamento da região para 2024 durante o dia de hoje é a crise de uma maioria de direita em desagregação. A maioria que se juntou para formar governo em 2020 está no fim de linha. A crise política é um sintoma do falhanço da sua política.

2. Assiste-se a uma desesperada tentativa por parte da coligação de direita em sacudir responsabilidades pelo seu falhanço para os partidos da oposição, fugindo das suas responsabilidades e abdicando de responsabilizar também quem os apoiou até aqui.

3. As permanentes, execráveis e sucessivas manobras de manipulação e chantagem da opinião pública por parte do governo regional, querendo fazer passar a desesperada e anti-democrática ideia de que quem está contra o orçamento está contra os Açores e que o voto contra no orçamento até colocaria em causa os pagamentos de apoios sociais revelam que a direita nos Açores atingiu o grau zero da argumentação política. Para a coligação PSD/CDS/PPM passou a valer tudo na campanha eleitoral que se avizinha.

4. A direita passou o debate do orçamento a comparar-se com o pior dos governos regionais do Partido Socialista, colocando a fasquia dos seus objetivos nos piores resultados de 24 anos de governação do PS: os números da pobreza, as casas construídas, os níveis de investimento público ou a situação no Serviço Regional de Saúde, têm como termo de comparação o que se fez no passado, que foi pouco, numa vã tentativa de disfarçar que a coligação de direita e o seu governo conseguiram o feito de fazer ainda pior. Aumentou a pobreza, não construíram uma única casa em 3 anos, falharam no investimento público e deixaram o Serviço Regional de Saúde ainda com menos recursos.

5. À direita do governo de coligação, CH e IL, assiste-se a uma tentativa de passar pelos pingos da chuva, uma manobra patética de tentar fugir às responsabilidades que tiveram ao longo da legislatura, desde logo a responsabilidade da própria existência deste governo, que sem estes não teria sido possível.

6. O primeiro partido a falar de datas de eleições regionais antecipadas, o CH, fá-lo a partir de Lisboa, pela voz do seu líder nacional, propondo que as mesmas sejam realizadas no mesmo dia das eleições legislativas para a Assembleia da República. Mais uma vez, a extrema-direita vê a Autonomia apenas como um meio para os seus fins políticos nacionais, procurando secundarizar e menosprezar eleições regionais, ao defender que se realizem no mesmo dia das eleições legislativas nacionais. O CH nos Açores e o seu deputado regional não existem, são fantoches de André Ventura. Com tudo isto compactua o PSD e José Manuel Bolieiro em mais um episódio da novela “vale tudo para manter o poder”.

7. Qualquer que seja o resultado da votação, as últimas semanas significaram que os Açores mergulharam num pântano político por responsabilidade total do governo regional de direita, do PSD, CDS e PPM e dos partidos que garantiram a sua existência e governação até aqui, CH e IL.

8. Os motivos alegados pelos partidos que apoiavam o governo regional de direita para não aprovarem o orçamento pouco têm a ver com o que lá está escrito mas com a falta de confiança no próprio governo. Este é por isso um governo frágil e sem apoio parlamentar que arrasta os Açores para uma crise política.

Sobre o/a autor(a)

Deputado do Bloco de Esquerda na Assembleia Regional dos Açores e Coordenador regional do Bloco/Açores
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