Nosso querido mês de agosto

porRodrigo Sousa

18 de agosto 2023 - 23:29
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Apesar de ser uma época única, toda esta efemeridade não devia ser um cenário distante ano após ano: o investimento cultural que acontece nestes territórios a nível de coletividades e cultura local devia ser uma realidade contínua.

Os meses passaram a correr. Quando demos por nós, estávamos rodeados perante o mês de agosto, altura dos míticos bailes populares. Uma época festiva onde se demonstra a resiliência de tantas coletividades e grupos que ano após ano, apesar de todas as dificuldades orçamentais e logísticas, montam aqueles que são os palcos dos reencontros e dos abraços adiados. Tudo por amor ao território, numa força motriz única que move toda a comunidade. Horas de cansaço e trabalho voluntário pela comunidade que se traduzem em míticos dias de festa.

E não há época mais bonita que esta: as gerações juntam-se, há uma harmonia única pelo ar e noite após noite os sorrisos vão ficando na memória. Isto sente-se especialmente no interior: vilas e aldeias ganham a vida que outrora tiveram, tornando os espaços comuns que conhecemos em espaços novos que parecem utopias de tão surreais que são comparados com o quotidiano ao qual nos acostumámos.

Apesar de ser uma época única, toda esta efemeridade não devia ser um cenário distante ano após ano: o investimento cultural que acontece nestes territórios a nível de coletividades e cultura local devia ser uma realidade contínua, com o devido reconhecimento da importância destes eventos para o nosso território, ao mesmo tempo os abraços adiados não deviam continuar a ser adiados pela distância.

O interior não devia estar subjugado a uma dinâmica de atividade temporária em certas alturas do ano

O interior não devia estar subjugado a uma dinâmica de atividade temporária em certas alturas do ano, quando fora disso é remetida a um papel silencioso e onde a desertificação é cada vez mais incentivada. Após uma geração de massiva emigração que Portugal não conseguiu captar e reconquistar, voltamos a viver hoje novamente um novo cenário de perda de jovens para territórios além fronteira — perpetuando um ciclo que devíamos evitar.

Se o fim do sonho é nos vendido como uma realidade, será este um dos motivos. Retirar a todo um território as suas pessoas, as suas convicções e a sua força motriz é o primeiro passo para a perpetuação de um clima de estagnação onde quem quer ficar, não tem condições para tal. Nem serviços públicos, nem transportes públicos, nem habitação. Como pensar um território que perde a sua alma e que depende de memórias e de reencontros temporários? Ficar perante tudo isto, é uma ideia radical — se não mesmo impossível. 

Que se aproveite esta época do ano para os sorrisos de sempre, mas com o pensamento de que tudo poderia ser diferente — houvesse vontade política. E que Agosto esteja sempre cá para criar as memórias que nos fazem tanta falta.

Artigo publicado em Gerador a 2 de agosto de 2023

Rodrigo Sousa
Sobre o/a autor(a)

Rodrigo Sousa

Estudante de Relações Internacionais na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra
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