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Nós não nos conhecemos já?!

Esta questão do family gate é muito desconfortável, todos a sentimos por perto e o cheiro a esturro parece tudo impregnar.

O círculo governamental envolvendo ministros e secretários de Estado é apenas o caso mais descarado e mais escandaloso. Em segundo lugar, perfilam-se os gabinetes: assessores e secretários. Depois, a plebe. Até percebo que a nomeação seja por competência e não sob influência deste ou daquele laço familiar e até aceitaria um caso, vá lá, dois casos. Mas a coisa complicou-se com a falta de tacto de António Costa e, a determinada altura, já vai numas dezenas de casos.

Quem nasceu num meio sem livros ou sem música, está excluído para todo o sempre

Deixou de interessar se as pessoas são competentes ou não; a única coisa que permanece quando o dia acaba, é que são muitos os casos, entre relações familiares muito próximas ou um pouco mais laterais. Os termos mais ou menos boçais para definir a situação são muitos, todos feios, todos a bater na democracia, todos a abrir as portas aos demagogos por aí à solta. Este compadrio não se limita à política, é recorrente na nossa sociedade.

Ao entrarmos num novo círculo, arriscamo-nos com muita frequência a ouvir a pergunta nós não nos conhecemos já? E lá está alguém a fazer um esforço de memória para situar, localizar sem deslize, identificar algum pormenor que nos coloque aqui ou acolá a determinada hora. Pior que isso, só a outra pergunta por acaso você não é parente de fulano? E depois tem de se ouvir uma evocação qualquer que tanto nos pode agradar como ser absolutamente despropositada.

Há pessoas que fazem essa busca com tal requinte para rotularem um recém-chegado que fico a pensar até onde chegou a escola do fascismo. Tudo com punhos de renda mas sempre muito incómodo. Depois há nichos na sociedade onde os apelidos contam (oh, como contam!), os casamentos contam ainda mais à boa maneira feudal (juntar ricos herdeiros para garantir enormes fortunas, benesses, mordomias), sempre a mesma lógica: isto, meus caros, é para poucos. Tudo o mais é espúrio.

Mas melhor mesmo é o que se passa com as épocas musicais desta ou daquela instituição. Os bilhetes são vendidos com antecedência, em regime de assinatura. Podem atingir preços proibitivos. Quando a venda começa, destina-se aos antigos assinantes. O filet mignon. Depois, abre-se a hipótese para novos assinantes. Antigos e novos unidos por grande disponibilidade financeira. Os bilhetes que sobram são, então, postos à venda avulso. Mas é pouco o que sobeja, os ossos. Mesmo assim, há procura. Um ano, outro ano, até à eternidade.

As vantagens de abrir a novos públicos (no entretenimento) e a novos profissionais (na cidadania e na política) faria desta nossa sociedade uma estrutura bem mais interessante e mobilizadora

Nunca vislumbrei sinais de mudança para corrigir este estado de coisas; pelo contrário, vi instituições que eram bem mais democráticas no sistema de venda mas estão, progressivamente, a fechar. Quando se consegue um bilhete, descobre-se um clube. Meneio para a esquerda, meneio para a direita e quem não cumprimenta é olhado como um alien. Assim se garante e preserva aquela sociedade ciosa dos seus privilégios, nada de abrir brechas a novos ouvintes e apreciadores. Um clube selecto e endogamico. A única diferença com o passado é que as toilettes foram abolidas (o Bordalo já caricaturava esta alteração de fachada).

É frequente ver banqueiros e administradores em jeans e as suas senhoras em modo desportivo. Não será isto uma manifestação idêntica à que criticamos na opção do governo? Como alguém disse, é natural que nas famílias com tradição política se formem políticos; pois, talvez, e acrescento eu, de leitores ou de ouvintes. Ou seja, quem nasceu num meio sem livros ou sem música, está excluído para todo o sempre. Não te queremos, chega para lá! Todos estigmatizados mas uns deles incapazes de reconhecer a democracia e os seus processos de abertura. A curto prazo as vantagens de abrir a novos públicos (no entretenimento) e a novos profissionais (na cidadania e na política) faria desta nossa sociedade uma estrutura bem mais interessante e mobilizadora.

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária reformada da função pública. Candidata do Bloco de Esquerda nas eleições legislativas de 2015, pelo círculo eleitoral de Lisboa. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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