A normalização da selvajaria

porPedro Amaral

11 de abril 2024 - 11:19
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Quando se dá margem a discursos discriminatórios, segregadores e violentos, é impossível achar-se que é inconsequente.

As nossas circunstâncias parecem estar a mudar. Talvez não seja num rompimento, mas antes numa transformação gradual que tem na atualidade uma expressão que começa a ganhar visibilidade. A deterioração dos valores de abril parece evidente, sendo que me parece ingénuo afirmar que esse processo é especificamente deste tempo e não uma questão estrutural, cultural. A hegemonia cultural hoje, aliás, é da normalização do ódio. E da selvajaria.

Recordo que num artigo anterior já escrevi sobre a utilização de crianças, filhos de políticos, como arma política. Intuitivamente, por bom senso, seria impensável num debate este assunto ser levantado ou ter qualquer relevo. O respeito pela vida privada e pela integridade do outro, neste caso acentuado por ser relativo a pessoas estranhas à atividade política, tem de ser um princípio na arena política. Se hoje é possível este debate rasteiro, é porque se normalizou a selvajaria.

Basta ir às redes sociais para perceber esta banalização da barbaridade. Existe um completo atropelamento ao outro a partir do momento que discorda da opinião, ou até, e aqui entra no ódio, integra uma comunidade considerada intrinsecamente inferior. Não são raras as ameaças à integridade física que se leem nesses espaços. Isto não pode ser visto como normal.

Este discurso de ódio, em específico, tem levado a um aumento nos crimes de ódio, esta correlação já tem vindo a ser estudada há anos. Trata-se de uma hegemonia cultural do ódio que custa vidas. Infelizmente, ao que tudo parece indicar, os Açores foram palco de um desses hediondos crimes. Quando se dá margem a discursos discriminatórios, segregadores e violentes, é impossível achar-se que é inconsequente. Infelizmente está bem à vista. Está agora a ser lançado um livro de um investigador português, Vicente Valentim, justamente sobre esta normalização.

Neste contexto, é imperativo agir. Não basta colocarmo-nos à margem, mas intervir. Não necessariamente ir para a rua marchar, mas consciencializar quem tem esse discurso à nossa volta que, além de intrinsecamente errado, tem consequências terríveis para vidas.

É necessário criar a empatia pelo outro, mesmo que não o conheçamos. Por isso também é importante o que acontece à volta do mundo. Há uns dias deparei-me com uma notícia sobre declarações da UNICEF a afirmar que as crianças em Gaza nem têm «energia para chorar». Quando algo não nos afeta, é fácil fechar os olhos e deixar andar.

Acabo com esta citação, tão conhecida, proferida por um pastor luterano na sequência do holocausto:

«Primeiro eles vieram buscar os socialistas, e eu fiquei calado — porque não era socialista.

Então, vieram buscar os sindicalistas, e eu fiquei calado — porque não era sindicalista.

Em seguida, vieram buscar os judeus, e eu fiquei calado — porque não era judeu.

Foi então que eles me vieram buscar, e já não havia mais ninguém para me defender.»

(Martin Niemöller)

Pedro Amaral
Sobre o/a autor(a)

Pedro Amaral

Natural da ilha de Santa Maria, estuda Filosofia no Porto. Membro da Comissão Coordenadora Regional dos Açores do Bloco de Esquerda.
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