Cada um de nós tem uma percepção própria sobre os acontecimentos e sobre as pessoas, percepção que se vai alterando ao longo do tempo porque a mudança acontece e dos dois lados da equação.
A figura do José Pacheco Pereira (JPP) é amplamente conhecida e mesmo quando não estamos de acordo com ela, aceitamos as suas interpretações e posições. Ou seja, há um reconhecimento generalizado sobre a sua pessoa, e não nos situando no seu quadrante político, não nos repugna ouvir, ler, debater com JPP. Tem uma longa experiência da luta anti-fascista, traz-nos sempre à lembrança esses tempos negros que alguns teimam em vilipendiar. É bom e indispensável ouvir pessoas com esse passado.
Trata-se de uma figura com intensa presença pública, assume-se como um bastião anti-fascista e, de antemão, sabemos que certas posições não vencerão aquele bastião. Isto é muito importante, cada vez mais, desenha o quadro plural em que devíamos viver.
Recentemente, porém, teve duas iniciativas que considero menos felizes. Uma foi a do debate com André Ventura (AV). Para quê, para quê, para quê?! Inútil, inoportuno, infeliz. JPP mediu mal o adversário. Julgou, ainda estou para perceber como é que o JPP se iludiu, que conseguiria um debate civilizado e esclarecedor. Engano puro, aquele adversário achincalha qualquer debate, seja na Assembleia da República ou num estúdio de do Ptelevisão. Foi doloroso assistir. Inevitavelmente, estávamos (e estamos) do lado do JPP por maior que seja o desacordo, mas ver e ouvir o AV a usufruir daquele tempo de antena em horário nobre, brada aos céus. Não podia causar maior satisfação a AV que, obviamente, nenhum jornalista consegue interromper. Só cortando o som, uma condição para o debate: se o comportamento ultrapassar o mínimo da urbanidade, corta. Gritaria, vocabulário de baixíssima extracção, mangação, corta. Atropelos, mentiras, falsidades, corta. Parece não haver força ou coragem para tomar esta medida. E, claro, galgou tudo, como um tsunami, JPP nem conseguiu perceber como foi encostado às cordas. Comentadores do Público e do Expresso consideraram que esta má prestação do JPP nos afecta a todos. Terá sido excesso de confiança ou arrogância por parte de JPP, dizem. Naqueles dias, achei exagerado, hoje depois da prestação de AV por ocasião da celebração do 25 de Abril, dou-lhes razão. O AV sente-se bem na ribalta, o mundo é dele e os media fazem-lhe a vontade. Afinal quem é que não está a perceber? Tempo de antena à discrição, o que mais podia AV ambicionar? Foi péssimo e antes que nos recompuséssemos, outra intervenção negativa de JPP. Será só o ar do tempo?!
JPP vem defender o indefensável (in Público, 2 Maio). Perante a malfeitoria governamental em cortar as verbas que permitam a concretização do projecto do Centro Interpretativo do 25 de Abril no Terreiro do Paço, o JPP vem alvitrar que se encontre um lugar no Porto. No Porto?! Peregrina ideia! É bom para o Governo, lança a confusão como eles gostam, a divisão instalou-se. O que anda o JPP a fazer?!
O Governo age provocatoriamente, não encontro mais nenhuma explicação. Compromissos honram-se, o Centro Interpretativo foi pensado para ser instalado no Terreiro do Paço, qualquer outra solução é um remedeio e é contra natura. Como já ouvi, mesmo em Santarém, na Escola Prática de Cavalaria donde saiu Salgueiro Maia, é desajustado. O momento da saída daquela coluna militar que tomaria os locais chave na capital é um momento para assinalar, sim, então que se reúnam os elementos necessários e organize localmente esse pólo. Na Pontinha? Foi da Pontinha que, claro, Otelo coordenou toda a operação Viragem Histórica, o local deveria ser preservado constituindo outro pólo fundamental. Mas JPP parece esquecer que o Terreiro do Paço era o centro político deste país, desde o século XVIII que o era, e foi lá que Salgueiro Maia colocou os tanques da EPC, enfrentou as colunas afectas ao regime, foi a sua coragem que demoveu a fragata ancorada no Tejo de bombardear os militares que enfrentaram o regime, e foi precisamente no Terreiro do Paço que às 12 horas de 25 de Abril, Salgueiro Maia teve a consciência que a causa estava ganha. Pode, então, dirigir-se para o Carmo, um desfile absolutamente triunfal Rua Augusta acima, em direcção ao Rossio, Rua do Carmo, Calçada do Sacramento, Largo do Carmo. Mas foi o Terreiro do Paço que testemunhou a grande reviravolta, a indescritível e espontânea aliança entre os populares anónimos e os militares. Desculpe o JPP, mas aconteceu em Lisboa, não no Porto. O JPP enumera a brilhante história do Porto, mas um passado rico em luta pela liberdade não deve alterar a verdade dos factos do que se passou em 25 de Abril em Lisboa, no Terreiro do Paço. Se o Porto não tem um museu que celebre esse passado, o problema é outro, resolvam-no como quiserem sem misturar séculos, factos, personagens. A história merece ser celebrada com verdade e exactidão. Os momentos inesquecíveis vividos no Porto para o derrube dos últimos redutos fascistas merecem, sim, ser assinalados, então, que seja organizado um pólo. Celebremos estes vários pólos que testemunham como o 25 de Abril teve a adesão popular em todo o país, mas não esqueçamos que o poder político fascista se concentrava no Terreiro do Paço e foi aí que Salgueiro Maia concentrou todo o seu poder de fogo, coragem e lideranlça. Se não formos capazes de honrar esta verdade, quem somos nós?!