No mundo das distrações, governa‑se em nome dos super-ricos

porLuís Monteiro

03 de setembro 2025 - 22:16
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Sem compreender o papel histórico da extrema-direita na reorganização do capitalismo, a tarefa da esquerda socialista fica ainda mais difícil.

Os últimos dados indicam que Portugal tem hoje um dos índices mais baixos de desemprego dos últimos anos. Ao mesmo tempo, sabemos que cerca de 60% da população ativa em Portugal aufere menos de 1000€ mensais de salário. Ao contrário do propalado pelas direitas, não são os imigrantes que nos roubam os empregos. O que aconteceu é outra coisa. Estamos assistir a uma das maiores transferências de poder económico dos bolsos de quem trabalha para os donos disto tudo. Para esse movimento, a extrema-direita foi novamente convocada na História para cumprir. Essa é a sua tarefa: através da guerra, da violência e do ódio, conseguir garantir aquilo que os sistemas demo-liberais já não conseguem oferecer ao sistema capitalista.

O aparecimento e ascensão da extrema-direita no século XXI têm sido enquadrados pelos meios liberais que “conduzem” o debate público exatamente nos termos preferenciais para a extrema-direita. Em causa está a famigerada “guerra cultural”, que coloca em disputa direta uma dita visão progressista contra uma visão ultraconservadora. É verdade que estão em causa modelos de sociedade onde as matérias de costumes, que ganharam especial relevância nas últimas décadas, e na qual a extrema-direita alicerça uma parte importante do seu discurso. Contudo, apresentar este espectro político apenas através do seu discurso sobre direitos e liberdades individuais é escamotear o seu papel estrutural na reorganização do sistema capitalista vigente.

O “mundo ocidental”, no qual o papel dos EUA e da NATO enquanto cabeças do monstro são essenciais para compreendermos o funcionamento da economia, deixou de garantir há muito as taxas de lucro que os principais “players” do mercado se haviam habituado no século XX. Os sistemas demo-liberais deixaram de responder às necessidades de uma classe dominante que tem vindo a perder poder económico e político nas novas geometrias planetárias, onde a China, a Índia e outros países com taxas de crescimento e produtividade assumem atualmente o comando de uma parte importante das decisões de toda a economia mundial.

Com dificuldades de fazer voltar aos seus países de origem a produção industrial e tecnológica (que foi relocalizada justamente nos países acima citados com o objetivo de baixar custos de produção), a estratégia do capitalismo ocidental é apostar em representantes políticos disponíveis para, em nome do aumento das taxas de lucro, esmagar direitos de cidadania e comprimir salários. O racismo que paira nas geografias que colonizaram é estrutural e, por isso, uma arma de fácil utilização quando é necessário abusar de trabalho imigrante, sem direitos sociais e a ganhar metade do que o proletariado nacional de cada uma dessas potências está disposto a aceitar.

Essa estratégia está bem presente no Portugal contemporâneo, através dos acordos entre o atual Governo da AD e o partido fascista Chega, ou até na atuação da AIMA, que prende imigrantes sem lher garantir sequer o direito de recurso da decisão das suas deportações. No passado dia 29 de julho à tarde, juntou-se mais de um milhar de pessoas à porta do Centro de Instalação Temporária (CIT), na cidade do Porto. A exigência era simples e clara: que a AIMA libertasse os cidadãos estrangeiros que foram ilegalmente impedidos de recorrer da decisão relativa à sua deportação. O que está em causa por parte da comunidade imigrante e das organizações como a Solidariedade Imigrante (que convocou este protesto) prende-se com o simples cumprimento da lei, nomeadamente o acordo de Schengen.

Sem compreender o papel histórico da extrema-direita na reorganização do capitalismo, a tarefa da esquerda socialista fica ainda mais difícil. A conversa da “guerra cultural” tem servido de armadilha para esconder o que realmente está em jogo no fim de contas: a ofensiva dos mais ricos dos ricos sobre a maioria do mundo.


Artigo publicado em A Contradição

Luís Monteiro
Sobre o/a autor(a)

Luís Monteiro

Museólogo. Investigador no Centro de Estudos Transdisciplinares “Cultura, Espaço e Memória”, Universidade do Porto
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