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No limite entre o público e o precipício do negócio

O grave episódio entre a professora Susana Peralta e os seus superiores hierárquicos não é uma exceção à regra. Há um debate que se abriu.

A economista Susana Peralta foi confrontada pela direção da sua Faculdade a não assinar a sua coluna de opinião enquanto docente dessa instituição. Não é um exagero autoritário de Daniel Traça, diretor da Nova SBE e administrador não executivo do banco Santander. Este é o modus operandi que o mundo empresarial português adotou. Se a Nova SBE é uma marca, aplique-se a mesma prática.

Os silêncios que imperam no Ensino Superior português são incómodos porque revelam falta de liberdade crítica

O grave episódio entre a professora Susana Peralta e os seus superiores hierárquicos não é uma exceção à regra. Os silêncios que imperam no Ensino Superior português são incómodos porque revelam falta de liberdade crítica. Apesar da sua coragem e determinação ao afirmar que continuará a assinar enquanto docente da casa, há um debate que se abriu.

Curiosamente, aqueles que têm sido os principais defensores do atual modelo de gestão universitário em Portugal não vieram em defesa da professora Susana Peralta. Este é o momento de o fazerem, provando que a sua gestão funciona e não admite qualquer tipo de censura. Os poucos que se pronunciaram, usaram da palavra para defender o negócio em que se tornou a Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa.

A fundação criada pela própria Universidade para gerir o imóvel de Carcavelos tem mais presenças de agentes privados do que da própria UNL. Estão lá e decidem mais do que docentes, investigadores e estudantes porque o poder político dos interesses privados incentivou esta promiscuidade.

A instituição Universidade Portuguesa está em crise. Contudo, ao contrário de outros serviços públicos para os quais o debate político assume o subfinanciamento como a causa da sua insuficiência, o Ensino Superior é o setor onde o parco investimento público não só é normal como desejável. Faz parte da visão estratégica de quem imaginou uma Universidade “livre” do Estado.

O Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES, Lei n.º 62/2007) não veio só introduzir um novo modelo de gestão mais vertical e mercantil. Ele representou, à data, um anúncio de uma nova liberdade. Essa nova liberdade baseia-se, essencialmente, na ideia de que o Estado é a mão pesada e que o espaço académico precisa de se autonomizar financeira e economicamente. A par dessa nova teoria da libertação neoliberal, hierarquizaram-se relações sociais e laborais

A Nova SBE já não é bem uma Universidade. Agora é uma marca. Já não presta propriamente um serviço público, tornou-se um player do mercado

António Guerreiro, numa crónica publicada aqui neste jornal, recorreu a Agamben para ensaiar uma visão de comunidade académica diferente desta. É justamente Agamben que já escreveu sobre uma “idea dello studio” e, tal como o cronista, recorro ao pensador italiano para fazer uma destrinça entre o que deve ser e o que não deve ser o papel de uma Universidade Pública. O que é que na Nova SBE é estudo? E negócio? A fundação com maioria privada, criada para gerir o empreendimento de Carcavelos, é em prol do estudo ou em prol do negócio?

A Nova SBE já não é bem uma Universidade. Agora é uma marca. Já não presta propriamente um serviço público, tornou-se um player do mercado. Já não analisa e questiona a Economia, doutrina o status quo. Já não permite pensamento crítico, critica quem o tem. Este exercício entre o limite do público e o precipício do negócio é o debate da liberdade académica e científica.

Artigo publicado em publico.pt a 7 de julho de 2020

Sobre o/a autor(a)

Museólogo. Deputado e membro da Comissão Política do Bloco de Esquerda.
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