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No faroeste ambiental

No que toca ao meio-ambiente, vivemos em Loures numa espécie de faroeste, onde impera a lei do mais forte, e ao elo mais fraco – as populações – cabe baixar a cabeça sem tugir nem mugir.

Indiferente à onda ecologista, à boleia da qual as alterações climáticas enchem finalmente páginas de revistas e abrem telejornais, não só pelos efeitos galopantes que provocam em vários pontos do globo, mais também pelas iniciativas ativistas que se multiplicam pelos cinco continentes, o concelho de Loures continua a relegar o meio-ambiente e o ordenamento do território para um plano secundário.

Multiplicam-se os casos gritantes de violações graves das mais elementares normas ambientais, empresas a operar há anos sem licença e populações inteiras que vivem sem o mínimo de qualidade de vida, com as inevitáveis consequências para a saúde que essas situações sempre acarretam. E que, às vezes, se arrastam por várias gerações.

Há poucos meses, ouvimos o presidente da Câmara Municipal de Loures, em resposta a uma pergunta do público numa Assembleia Municipal descentralizada realizada na Apelação, dizer que uma empresa que ali labora e tem por hábito criar pilhas de contentores com muitos metros de altura está a operar ilegalmente num terreno rural. Está a operar impunemente e contra qualquer boa prática ambiental básica.

É também amplamente conhecido o caso de uma multinacional que opera na zona de Camarate, paredes meias com um bairro onde as pessoas se veem impedidas de sequer abrirem as janelas, tal é o pó emanado daquele estaleiro e o cheiro nauseabundo soprado pelo vento. E que, sabe-se agora, nem sequer tem licença para operar naquele local.

Poderia aqui citar também o caso de uma conhecida lavandaria industrial que, há quase uma década, labora em São João da Talha, libertando diariamente bolas de cotão para os quintais da população do Bairro da Esperança, a menos de 50 metros, e onde existe uma escola primária. Casos houve já de lençóis hospitalares encontrados no esgoto provenientes desta lavandaria que, soube-se também, opera há mais de oito anos sem licença camarária.

O Xerife de Nottingham

No que toca ao meio-ambiente, vivemos em Loures numa espécie de faroeste, onde impera a lei do mais forte, e ao elo mais fraco – as populações – cabe baixar a cabeça sem tugir nem mugir. De nada vale assinar o Pacto dos Autarcas quando há estaleiros industriais no meio de duas escolas da Apelação, em que as crianças convivem, no recreio, com o ruído das retroescavadoras.

E quando há a oportunidade de emendar a mão, eis que, no novo projeto que vai ligar o Prior Velho à Portela, está a considerar-se instalar, a menos de 100 metros de vários prédios de habitação e a menos de 500 metros de duas escolas, nada menos do que um posto de abastecimento de combustíveis, com serviço de lavagem automóvel.

Estes são apenas alguns exemplos da falta de planeamento do território em Loures e das enormes dificuldades da autarquia em regular e fiscalizar o parque industrial no concelho. E quem sofre com isso é o meio-ambiente e a saúde das famílias que ali vivem, estudam e trabalham.

Poder-se-ia dizer, sem cair na tentação de arriscar um cliché, que a Câmara Municipal de Loures, no que toca ao ambiente, renunciou ao papel de Robin dos Bosques para abraçar o de Xerife de Nottingham. E nesta história sem final feliz, o povo é quem paga!

Sobre o/a autor(a)

Jornalista e deputado municipal do Bloco de Esquerda
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