Esta noite, os restaurantes estarão cheios, as mesas alinhadas, os copos a tilintar, os postais preenchidos com promessas de amor eterno, as montras exibirão joias, as floristas não terão mãos a medir e tudo se vestirá de vermelho — a cor do desejo, da paixão, da perfeição encenada nas redes sociais.
Quando a noite terminar, quando a porta de casa se fechar e o silêncio substituir os brindes, o vermelho mudará de significado. Para muitas mulheres, deixará de ser amor e passará a ser sangue… Escondido por maquilhagem, por mangas compridas, por desculpas ensaiadas, sangue de uma violência que não começou hoje, mas que hoje foi disfarçada para caber no calendário do romantismo obrigatório.
Se este dia tivesse um pingo de honestidade este deveria ser o ponto de partida — não as flores, não os jantares, não as promessas repetidas, mas a verdade que o país prefere empurrar para dentro de casa e fechar à chave, porque enquanto celebramos o amor como produto, continuamos a falhar naquilo que ele deveria garantir: segurança, dignidade e vida.
Gabamo-nos, constantemente, dos progressos civilizacionais, da ciência, da igualdade formal, dos direitos conquistados, mas todos os anos em Portugal, continuam a ser assassinadas mulheres por quem um dia lhes prometeu amor eterno e enquanto o país celebra rankings europeus e exportações, há uma guerra civil a acontecer dentro das casas.
Nos relatórios escreve-se violência doméstica. Nos títulos lê-se tragédia. Chamemos-lhe pelo nome: assassinato. Assassinato com assinatura coletiva — do Estado que falha, da justiça que minimiza, da sociedade que prefere não ver.
Dizem-nos que o mundo avança, mas há algo que avança mais depressa: o número de mulheres mortas e por cada mulher assassinada, há milhares que continuam vivas por medo de denunciar, de não serem levadas a sério, de perderem tudo, de que seja pior.
As denúncias aumentam, mas as condenações não as acompanham. Quando existem condenações, as penas são curtas, simbólicas, quase pedagógicas para quem nunca aprendeu a respeitar. Condenações leves
para crimes pesados. Sentenças brandas para infernos longos. Uma vida em troca de meses… E no final, muitos agressores regressam a casa porque as vítimas retiraram a queixa — como se o perdão fosse escolha livre e não resultado de abandono institucional, dependência económica, chantagem emocional e terror continuado.
Vivemos num país que ainda repete “entre marido e mulher não se mete a colher”, mas nestes casos não se mete a colher — mete-se o caixão.
A violência doméstica é crime público há mais de vinte anos. Crime público significa que não é um assunto privado, que não é só um problema do casal, que não é drama doméstico. Significa que todos temos o dever de agir, que ouvir gritos não é indiscrição, é responsabilidade, que ignorar é escolher o lado errado.
Crescemos em lares onde a violência nunca é chamada pelo nome, é apelidada de mau feitio, nervos, fase difícil, “ele é assim mesmo”. Ensinam-nos cedo que a violência só existe quando há murros visíveis, ossos partidos, sangue no chão — tudo o resto não passa de exagero, dramatização, falta de paciência. O controlo é cuidado, o medo é amor e o silêncio maturidade.
Quando a vítima tenta sair, ouve-se a sentença social: “Casaste, agora aguenta.” Aguenta os gritos, a humilhação, o isolamento, o corpo que encolhe e a voz que desaparece. Grande parte das famílias sabe, vê, ouve, assiste a episódios repetidos e, ainda assim, quando chega a hora de escolher, escolhe quase sempre o agressor, protege-o, desculpa-o, justifica-o e aplaude, da primeira fila, o espetáculo contínuo da humilhação.
É assim que se constrói a pedagogia da violência: não com pancadas apenas, mas com palavras, omissões e cumplicidades. Aprende-se que insultar, controlar, ameaçar e isolar não são formas de violência — só é violência quando já é tarde demais… E é aí que se aprende, que neste país, o amor é um campo minado: ou se morre dentro dele, ou se sobrevive mutilada à custa dele.
Antes de abril, o marido podia matar a mulher apanhada em pleno adultério, era aceite. Num país que rezava a Deus, gritava pela Pátria e que jurava pela Família, permitia-se o homicídio como prova de honra.
Deus, Pátria, Família. Três palavras que sempre foram usadas para justificar o impensável.
Deus, para perdoar o agressor.
Pátria, para proteger o sistema.
Família, para silenciar as vítimas.
Mudam-se as leis, mas os discursos mantêm-se, ficando apenas mais polidos. Hoje dizem-nos que é preciso compreender, que a família deve manter-se unida, que Deus dá as batalhas mais difíceis aos seus melhores soldados, mas Deus não dá batalhas, dá livre-arbítrio e a Pátria que não protege os seus não é mãe — é cúmplice.
A violência doméstica não é um desvio, é um espelho, mostra-nos um país onde a desigualdade ainda mora à mesa, onde a dependência económica aprisiona, onde a vergonha é herança e o medo é rotina… Um país que ensina as filhas a baixarem a cabeça e os filhos a levantarem a voz.
Depois, quando o pior acontece, dizemos “coitada”, “ninguém sabia”, “pareciam tão felizes”, mas sabíamos só não quisemos ouvir.
A violência doméstica é a guerra invisível da nossa democracia e cada mulher assassinada é mais uma derrota de um Estado que ainda não cumpre abril, porque abril não é só cravos nas janelas é segurança nas casas, não é só liberdade nas ruas é liberdade dentro das paredes e enquanto houver uma mulher que não possa dormir em paz, não há país livre.
É tempo de dizer basta. De ensinar que amor não é posse, que perdão não é desculpa, que silêncio não é respeito. É tempo de exigir que os tribunais, a polícia, os vizinhos, o país inteiro, deixem de olhar para o lado, de assumir que a violência doméstica não é uma tragédia inevitável, mas sim uma escolha coletiva.
Se precisares de ajuda, não esperes pelo próximo pedido de desculpa, pela próxima promessa, pelo próximo “vai mudar”. Se não te sentires segura numa esquadra e sabemos que muitas vezes não te sentes, procura associações, linhas de apoio, estruturas especializadas que existem precisamente para te acolher sem julgar, sem pressionar, sem te perguntar porque ficaste.
Não tens de enfrentar isto sozinha, há linhas telefónicas, casas de abrigo, técnicos especializados, mulheres que já passaram pelo mesmo e te podem ajudar a sair viva. Falar não te torna fraca. Denunciar não te torna culpada. Sair não te torna ingrata.
Se estás em perigo, liga 112.
Se precisas de apoio, liga para a Linha Nacional de Emergência Social – 144 (24 horas, gratuita).
Podes também contactar a APAV – 116 006, onde serás ouvida com confidencialidade e respeito.
O amor não pode trazer medo nem dor e se alguém te convenceu do contrário, o erro nunca foste tu.
O vermelho não tem de ser sangue e o amor não pode continuar a mata