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Nenhuma indiferença face a Bolsonaro

Editorial do jornal Público defendeu recentemente que Portugal deve expressar preocupação com a ameaça do bolsonarismo e alertou que “a solidariedade internacional faz sentido e falta.” Mas há pouco mais de dois anos, a posição do jornal era diferente.

O jornal Público finalmente acordou. Como diz o provérbio, mais vale tarde que nunca. Quase três anos depois da posse de um neofascista na Presidência do Brasil, o diretor, Manuel Carvalho, defendeu que se encontrem formas de “expressar preocupação com a ameaça do bolsonarismo e mostrar que (…) Portugal está solidário com todos os que se empenham em manter vivo o Estado de direito”. E mais: perante a realização das manifestações do 7 de setembro, promovidas por Bolsonaro e com um conteúdo golpista, Carvalho afirmou que “É neste preciso momento que a solidariedade internacional faz sentido e falta.”

Mas não era assim que o Público pensava em agosto de 2019, quando a diretora-adjunta Ana Sá Lopes se atirou ao Bloco de Esquerda por este ter defendido o cancelamento de uma prevista visita oficial de Bolsonaro a Portugal. A nota do Bloco referia-se a comentários desdenhosos feitos acerca do desaparecimento, nos anos 70, às mãos da ditadura militar, de um jovem militante de esquerda, Fernando Santa Cruz, pai do atual presidente da Ordem dos Advogados do Brasil. O presidente brasileiro afirmara que Fernando Santa Cruz fora morto pelos seus próprios correligionários. A deputada bloquista Joana Mortágua sustentou na altura que “os portugueses e o governo não podem ficar indiferentes face a um presidente que (…) parece ignorar os fundamentos do Estado Democrático de Direito, entre eles “a dignidade da pessoa humana, na qual se inclui o direito ao respeito da memória dos mortos”.

Por isso, o Bloco dizia que “Bolsonaro não é bem-vindo em Portugal”. A visita, a existir, “sinalizaria ao povo irmão do Brasil que o Governo português é conivente com o constante desrespeito pela democracia demonstrado pelo atual governo.”

“Infelizmente para este argumento”, rebateu então Ana Sá Lopes, “foi o ‘povo irmão brasileiro’ que elegeu Jair Bolsonaro como seu Presidente em eleições até agora não declaradas ilegais.” Além disso, prosseguiu, a “imbecilidade” de Bolsonaro não seria mais grave do que aquela em que glorificou o torturador de Dilma Rousseff. E fulminava: “Existe a alternativa teórica de cortar relações diplomáticas com o Brasil, mas nem deve ser isso que o Bloco quer.”

Na época, tomei a iniciativa da tréplica, no Público. “Devemos ser indiferentes a Bolsonaro?, questionei, escandalizando-me com o encolher de ombros de Ana Sá Lopes diante da atuação do presidente Bolsonaro, como se nada tivesse a ver connosco. O meu texto argumentava: “A indiferença frente a Bolsonaro significa ignorar os pedidos de socorro que soam pelo Brasil. Todos recordamos que os fascismos dos anos 30 na Europa também foram eleitos sem que os outros governos europeus mostrassem grande incómodo. As consequências que essa indiferença provocou marcaram a História para sempre.”

A visita de Bolsonaro nunca se concretizou, provavelmente pelo total desinteresse de Bolsonaro, ou do seu então ministro de Relações Exteriores, o patético Ernesto Araújo. Mas Marcelo visitou o neofascista na Presidência do Brasil em duas ocasiões: uma na posse, quando foi dos raros chefes de Estado europeus a fazê-lo, e outra em julho deste ano, para a reinauguração do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, a que Bolsonaro faltou, preferindo passear de mota com os seus apoiantes (as “motociatas” de Bolsonaro). Marcelo acabaria por ser recebido em Brasília só para passar por novos constrangimentos: toda a delegação brasileira apareceu sem máscara e Bolsonaro ainda o presenteou com piadas de caserna (de cunho sexual), durante o almoço. O que Portugal ganhou com estas visitas de Marcelo é algo desconhecido. A razão de Marcelo ter mantido a visita a Brasília, depois da desfeita em São Paulo, é algo que nem a melhor retórica do Presidente português consegue explicar.

Manuel Carvalho escreveu no último dia 6 de setembro: “Até agora, o Brasil mostrou ser uma nação com nervo para resistir e garantir que os seus cidadãos poderão exercer a sua vontade nas eleições de 2022. É bom que saibam que não estão sozinhos.” Tem toda a razão. Hoje, como em agosto de 2019, a solidariedade internacional é necessária.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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