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Negociar com terroristas

Como se viu nestas negociações, interessa apenas a austeridade cega e, em caso de não-submissão absoluta, espera-nos apenas a humilhação total.

Alexis Tsipras entrou na sala para a Cimeira dos Líderes da Zona Euro sabendo já quais eram as propostas que o Eurogrupo tinha avançado: saída temporária do euro, não tocar na dívida, a troika com o FMI à cabeça a entrar diretamente na governança do país, mais precarização e cortes nas pensões, privatização da eletricidade e a constituição de um fundo com 50 mil milhões de euros de bens públicos gregos (não existem, o que significa que são provavelmente ilhas) para serem utilizados no abatimento da dívida, além de outras medidas de austeridade muitíssimo gravosas. Para ser claro, o primeiro-ministro grego entrou numa caverna onde estavam mais de 20 talibãs, a afiar as suas facas e espadas. No fim, mais de 15 horas depois de negociações com os terroristas, saiu com um “acordo”.

Já começaram guerras por menos” do que isto, dizia-se na revista Forbes. Entre as comparações com o Tratado de Versalhes ou o Acordo de Munique, a opinião é quase unânime na imprensa mundial de que se trata do mais violento pacote de austeridade já aplicado a um país europeu, acrescendo a imposição de estatuto de quase-colónia à Grécia “o mais intrusivo programa se supervisão económica alguma vez montado na UE” (Financial Times). Em Portugal a subserviência já fez tanto caminho que há até quem lhe chame “solidariedade europeia” sem disputa. Que era uma punição não se duvidava, que fosse tão longe ninguém acreditava. Eram mesmo 20 talibãs lá dentro, até Hollande diz que “A Grécia não foi humilhada”.

Voltando a Atenas, põe-se um problema claríssimo de legitimidade. O Syriza foi eleito para acabar com a austeridade, não para salvar o euro. Venceu umas eleições com 36% para evitar mais austeridade e venceu um referendo com 61% contra um pacote muito menos grave do que este. Ao aceitar este acordo e propor-se executá-lo o Syriza torna-se exatamente aquilo que prometeu combater na sua eleição, com ainda menos legitimidade. O tabu euro foi decisivo para a derrota nas negociações: o medo das consequências de uma mudança cambial entrou na direção do partido e a potencial comoção de uma tal saída (de todo inédita na história mundial e que com planificação pode ter consequências reduzidas e a curto prazo) levou a melhor, desprezando o facto que a desvalorização salarial já ocorreu na Grécia, dentro do euro. O plano que Varoufakis revelou ter apresentado ao Syriza, poderia equilibrar a balança. E retirar a tática da alemã para o Grexit, que funcionou porque Schäuble e Merkel perceberam que a linha vermelha do Syriza era o euro e não a austeridade.

A União Europeia e o euro são hoje uma armadilha para os países do Sul da Europa, não é uma união ou proto-federação, mas apenas o clube dos amigos e das colónias da banca e da finança alemã - que controlam os partidos do centro esquerda, centro direita, socialistas, liberais e conservadores – que impõe as regras e controlam o dinheiro, os impostos, salários, pensões e investimentos de cada um dos outros países. Como se viu nestas negociações, interessa apenas a austeridade cega e, em caso de não-submissão absoluta, espera-nos apenas a humilhação total. Todas as forças sociais, democráticas e progressistas da Europa não podem deixar de tirar conclusões sérias para poderem agir sobre o futuro dos povos: uma das principais é que não se negoceia desarmado com terroristas.

Artigo publicado em p3.publico.pt em 14 de julho de 2015

Sobre o/a autor(a)

Investigador em Alterações Climáticas. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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