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Natal, a última absolvição

A partir de segunda-feira, teremos a contabilização das garfadas e facadas de Natal como se de espingardas a disparar entre trincheiras se tratassem.

Hoje, amanhã e - com sorte - no domingo. Três dias que são de paz, politicamente neutros, repletos de pequenos actos de armistício e pazes feitas, mas que, desde o rebentar da pandemia, são tudo menos irrelevantes. A partir de segunda-feira, teremos a contabilização das garfadas e facadas de Natal como se de espingardas a disparar entre trincheiras se tratassem. Tudo ao molho e com pouquíssima fé em Deus, a contar infectados, internados e intensivos. A contar as mortes. A apontar as culpas.

Negacionistas a negar que o maior número de internados em UCI são mesmo não vacinados, liberais a relativizar em direcção ao umbigo em nome da economia e da liberdade que apregoam, mesmo que a preguem com os pregos infantis de uma mão invisível. Santa quadra em que só revolucionários e conservadores parecem pensar em nós, todos nós, os filhos de Deus.

É perfeitamente possível que virologistas tenham que madrugar em dia feriado. Está por saber qual o comportamento que as famílias irão adoptar nesta noite de véspera, daqui a umas horas, divididas entre o cansaço das vagas que já tanto as afastaram e a responsabilidade de resistirem à tentação de uma ceia em grupo familiar alargado. Há um sentimento de desamparo e abandono no ar. Todos órfãos das boas indicações da DGS, no ano passado, que nos fazia sonhar com compotas trocadas entre vizinhos no vão de escada de um bairro ou condomínio ou em "visitas rápidas ao quintal". Este ano, sempre longe da teocracia ou da fantasia, o ar que se respira é tão mais tecnocrático.

A secura dos números ficou agora a falar por si. Só ontem, quase mais 9000 casos e um crescimento que se esperava desde que o Governo fingiu que podia acabar o ano com as medidas "light" que propôs há semanas. O endurecimento das medidas é um sinal de progresso para aqueles que acordam estupidamente optimistas. Há que cuidar das eleições no fim de Janeiro e o caminho faz-se apenas e só pelo que é estritamente necessário. Um combo de contenções e optimismos, condenado ao puro revisionismo.

O presente colectivo não se conjuga em nenhuma forma de verbo. Está cheio de nomes, adjectivos e admite impropérios a saldo. Acção, nenhuma. Ninguém sabe como agir para amanhã. Seremos todos reféns do cuidado e, se temor fosse crença, estes seriam os mais católicos dos natais. Tendemos quase todos à absolvição, parecendo que renascemos meninos.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 24 de dezembro de 2021

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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