Nesta época festiva, já muitas foram as notícias e publicações nas redes sociais sobre as luzes de Barcelos. As estradas podem continuar com buracos e as obras paradas, sem fim à vista, pois, desde que as luzes brilhem, para o Executivo camarário está tudo bem.
Ainda assim, o propósito deste texto não se centra sobre a falta de visão do Executivo, nem sobre Barcelos. Pelo contrário, pretendo falar da situação que se vive em Gaza com o ataque de Israel: o genocídio do povo palestiniano, que está a ser transmitido em direto, e que já dura há mais de 75 anos.
Em 1948, na Palestina aconteceu a Nakba. Milícias sionistas (seguidores do projeto político, nacionalista e colonial em que está assente o sionismo, doutrina utilizada pelo Estado de Israel para justificar a expansão do seu território e os ataques constantes ao povo palestiniano) expulsaram quase um milhão de palestinos das suas casas e aldeias, que nunca mais puderam regressar às suas terras. Estes territórios palestinianos foram ocupados e reivindicados por Israel, à semelhança do que hoje se verifica com os colonatos.
Desde então que o terror se abateu e agravou, ao longo dos anos, sobre a Palestina. A política de apartheid de Israel e a ocupação sionista foi-se intensificando, com o respaldo dos aliados na Europa e, principalmente, dos Estados Unidos da América. Hoje, perante a catástrofe humanitária e o extermínio do povo palestino, quando dezenas de países de todo o mundo e a própria Organização das Nações Unidas (ONU) pedem paz na região e o fim do ataque israelita, o que vemos é esta aliança de abutres assassinos continuar a destruir um povo. Na verdade, a guerra de Israel não é contra o Hamas, mas, antes, contra o povo palestiniano.
Obviamente, não irei ignorar o que aconteceu a 7 de outubro, quando o Hamas organizou uma série de ataques que provocaram a morte de mais de 1300 pessoas, entre elas civis inocentes. Foi um ato de terror, um crime de guerra condenável a todos os títulos. Mas e a forma como Israel “se defendeu”? Genocídio e punição coletiva contra o povo palestiniano.
Desengane-se quem pense que o “contra-ataque” israelita é um intenso combate contra o Hamas e outros grupos. O que o Estado de Israel está a fazer é utilizar esta situação para destruir a sociedade palestiniana, apagando a sua história e a sua cultura. Edifícios como o Supremo Tribunal de Gaza, o Edifício do Centro de Arquivos ou a Universidade de Al-Azhar foram destruídos. Figuras como Sufyan Tayeh, cientista e Reitor da Universidade Islâmica de Gaza, ou Refaat Alareer, escritor, professor e um dos mais reconhecidos poetas palestinianos, foram assassinadas, junto das suas famílias, pelas tropas de Israel. Em Gaza, vemos quais as verdadeiras intenções de Israel: a eliminação do povo palestiniano.
Desde o início do “contra-ataque” israelita, mais de 80% da população de Gaza perdeu ou teve de abandonar as suas casas, encontrando-se deslocadas. Até ao momento, mais de 19 mil pessoas foram mortas pela ofensiva israelita, com muitas mais dezenas de milhares a ficarem feridas e estropiadas, física e mentalmente, pelos ataques. Dezenas de jornalistas foram assassinados durante o conflito. A ONU e organizações humanitárias que atuam em Gaza, nomeadamente, o Crescente Vermelho, também confirmaram que dezenas dos seus trabalhadores foram mortos.
Enquanto tudo isto acontece, não há forma de se posicionar a meio. Ou caracterizamos estes crimes desumanos e desprezíveis como o exercício por Israel do seu “direito à defesa”, colaborando assim na legitimação da limpeza étnica e do genocídio conduzidas por um regime de apartheid, ou estamos veementemente contra o que acontece, solidários com a luta do povo palestiniano pela sua sobrevivência e pelo seu direito à autodeterminação, exigindo o fim do ataque sionista.
Em suma, a origem da violência na Palestina e em Israel é a política de ocupação, limpeza étnica e apartheid conduzida por Israel ao longo de décadas. Tudo isto está mais do que documentado e são inúmeras as provas disso mesmo.
É necessário trilhar caminho para a paz e o fim da agressão sionista - o isolamento do Estado de Israel e da imposição, por parte da comunidade internacional, de medidas de embargo de armas, desinvestimento e boicote económico, à semelhança do que aconteceu com o regime de apartheid da África do Sul.
Neste Natal, enquanto estamos juntos de quem nos é mais querido e esperamos que 2024 seja um bom ano, não nos esqueçamos do que está a acontecer em Gaza, do genocídio de um povo que passa na televisão como se nada fosse.
Artigo publicado no jornal Barcelos Popular a 21 de dezembro de 2023