Em memória de Joaquim Fidalgo de Freitas (10/12/1947- 9/03/2026)*
A estrela extinta
Choro por ambos
por ti e por mim
Tu sopras nas estrelas
as minhas lágrimas
No teu mundo
a liberdade da luz
No meu
a perseguição das sombras
Tu e eu chegaremos a um fim
em algum lugar
O poema mais lindo do mundo
cairá no silêncio
Em algum lugar
vais começar
a chorar
a lamúria da vida.
Mas eu vou acabar
Eu vou queimar
serei aquela estrela extinta
no teu céu
feita fumaça
- Parni Abbasi, professora e poeta iraniana, morta em 14.06.2025, aos 24 anos de idade, num bombardeamento de Israel a uma área civil de Teerão, em que também foram assassinados os seus pais e o seu irmão mais novo, enquanto dormiam. “Escrever traz-me paz!”, disse ela numa entrevista. A guerra extinguiu uma estrela, feita fumaça. No meu céu, a revolta acende um fogaréu!
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Começo a escrever esta crónica no Dia Internacional da Mulher, 8 de Março, inspirado por um filme que passou ao fim da tarde na RTP 2, sobre Olympe de Gouges, dramaturga, feminista e abolicionista francesa, que, desiludida por a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, que saíu da Revolução Francesa, não ter rompido com a dominação patriarcal da mulher, escreveu a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, em 1791, o que lhe valeu ser guilhotinada pelo “terror” de Robespierre.
Recordou-me as mulheres que participaram na Revolução Iraniana de 1979 contra a ditadura do Xá, que depressa se sentiram traídas pela nova ditadura teocrática do ayatollah Khomeini. Hoje, muitas mulheres iranianas que têm lutado contra a “Patrulha da moral” que prende e mata só por uso inapropriado do hijab, como aconteceu em 2022 com a curda Mahsa Amini, cujo assassinato provocou protestos em dezenas de cidades, violentamente reprimidos, e uma greve geral no Curdistão iraniano, sentem-se de novo traídas ao verem manifestantes nas ruas com bandeiras dos EUA e de Israel - os dois principais apoiantes, junto com o Reino Unido (RU), da ditadura de Reza Pahlevi - exibindo fotografias do filho deste Xá, e exigem, tal como muitos políticos de esquerda exilados ou na clandestinidade, como o Partido Tudeh (m-l): “Nem Ayatollahs, nem Xás!” Até a viúva do Xá se pronunciou contra as interferências externas na política iraniana.
Os (e as) democratas do Irão não esquecem que foram os EUA/CIA e o Reino Unido que organizaram o golpe de Estado de 19.08.1953 que derrubou o governo democrático de Mossadegh (que ficou em prisão domiciliária até à morte), por este ter ousado nacionalizar o petróleo iraniano, e colocou no trono o fantoche do Xá. O saque do petróleo e do gás é o principal objectivo de Trump, além de distrair os cidadãos estadunidenses dos “ficheiros Epstein” que o indiciam como pedófilo. Trump já afirmou que não se importa que seja nomeado outro aiatolá desde que seja amigo dos EUA (que o mesmo é dizer: desde que lhe entregue o petróleo, tal como fez na Venezuela). A política “tarifárica” de Trump agravou o desemprego e a perda do poder de compra dos estadunidenses. Os EUA já fizeram mais de 200 intervenções militares desde o fim da segunda guerra mundial, da América Latina à Ásia, causaram milhões de mortos em menos de 300 anos de história do país, e usam o complexo industrial-militar (têm mais de 800 bases em todo o mundo e gastam tanto em armamento como todos os outros países juntos) para saquear riquezas alheias e alimentar a finança e o petróleo que lhes garante os “petrodólares”. Esta economia carece de guerra permanente e gera cada vez mais desigualdades sociais, com 0,1% dos mais ricos a deter 13,8% da riqueza, enquanto os 50% mais pobres apenas possuem 2,5%, o que aumenta o número de desalojados e sem-abrigo no país que quer ser dono do mundo.
Por seu lado, Netanyahu tem dois objectivos: construir o “Grande Israel” (que inclui a anexação da Cisjordânia e de partes dos países vizinhos) e a manutenção da “guerra perpétua” para evitar o seu julgamento e prisão, tanto pelos tribunais de Israel por corrupção e fraudes, como pelo Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade e o genocídio em Gaza.
O argumento espúrio de que estão a bombardear o Irão para salvar o seu povo da ditadura e salvar as mulheres iranianas das punições do fanatismo islâmico cai por terra quando as bombas destroiem uma escola de meninas, matando 168 crianças, num total de 1.700 mortos até ao momento.
Trump devia começar por libertar as mulheres dos EUA da recuperação que fez, há três anos, de uma lei de 1925 que penaliza os médicos que auxiliarem a interromper a gravidez, incluindo nos casos de violação e incesto; o resgate de uma lei de 1873 para restringir o uso de pílula abortivas; a revogação do princípio da igualdade salarial entre homens e mulheres; o enfraquecimento da protecção da igualdade de género no local de trabalho; cortes de fundos para combater a violência sexual e de género. Sem esquecer o aumento da violência política contra grupos de esquerda e movimentos progressistas, incluindo a perseguição e despedimento de professores por se manifestarem a favor da Palestina, como aconteceu com uma minha amiga estadunidense que foi despedida da universidade onde leccionava, por ser contra o genocídio em Gaza. De facto, os principais cúmplices deste genocídio são os EUA (de Trump e de Biden).
A União Europeia de joelhos aos pés de Trump e Netanyahu
Os líderes europeus, de Von der Leyen e Kallas, a Merz e Macron, passando por Costa (que “desajoelha” a medo e tardiamente) conseguiram atingir o cúmulo da sabujice ao criticar a resposta do Irão, sem primeiro condenar os EUA e Israel pela segunda agressão ao Irão em 8 meses, a meio de uma negociação que, diziam os EUA, até estava a correr bem. Só a Espanha e a Irlanda salvam a honra deste convento em ruínas. Por cá, o governo torna Portugal cúmplice desta agressão ao autorizar o uso da Base das Lajes ao arrepio do acordo assinado com os EUA, violando a própria Constituição da República e mentindo aos portugueses sobre as 3 “condicionantes” porque nenhuma foi respeitada, a começar pela restrição a alvos militares, quando já morreram 1.300 civis. Já estamos a pagar caro e vai piorar!
As ameaças de Trump ao Canadá e à Dinamarca (invasão da Groenlândia) e à Espanha mostram que o maior inimigo da Europa e do Mundo são os EUA e o seu “proxy”, o governo sionista e genocida de Israel, ambos com armas nucleares, ao contrário do Irão que não invadiu nenhum país, diz que só pretende usar o combustível nuclear para fins pacíficos e, de facto, ainda não tem armas nucleares, como confirmado pela Agência Internacional de Energia Atómica.
O Irão é herdeiro de mais de 7.000 anos da civilização persa, com um povo culto, notáveis escritores (da poesia persa clássica até à modernidade), músicos, cantores, artistas plásticas, arquitectos e vários cineastas premiados: Asghar Farhadi (vencedor de 2 Óscares com “A Separação” de 2011 e O Apartamento” de 2016), Kiarostami (Tempo das Cerejas, 1997, Palma de Ouro), Jafar Panahi (“ O Balão Branco” 1995, Camera d’Or, Cannes“, “Foi Apenas um Acidente”, Palma de Ouro de Cannes 2025), Mohammad Rasoulof (“O Mal Não Existe”, Urso de Ouro, Berlim 2020), Saeed Roastayi (“Os irmãos de Leila”), Mostafa Al-Ahmad, Ali Asgari, Masoud Kimiai, Maryam Moghadam e Behtash Sanaeha, quase todos perseguidos, proibidos de filmar, presos ou torturados. Apesar das restrições no acesso das mulheres a alguns cursos do ensino superior, com a islamização das universidades decretada por Khamenei em 2009, o Irão tem a maior percentagem do mundo de mulheres licenciadas e 60% dos engenheiros em 2011 eram mulheres. Um povo como este é bem capaz de se libertar por si próprio. Assim os outros povos do mundo saibam ser solidários e forcem os seus governantes a deixarem de ser covardes lacaios de criminosos de guerra como Trump ou Netanyahu.
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* Um dia depois de ter escrito este artigo, fiquei chocado com a notícia da morte do meu amigo Joaquim Fidalgo de Freitas, um excelente e inovador psiquiatra, um ser humano solidário, sempre simpático e bem humorado, guiado pela ética, tanto na profissão como no desporto que praticou pela vida fora como manutenção da saúde física e mental (praticante de natação e nadador-salvador, ganhou vários títulos nacionais como nadador Master; foi como médico oficial aos Jogos Olímpicos de 1976 e 1980). Cidadão exemplar, foi um grande democrata e lutador por um mundo melhor. Deu-me a honra de aceitar ir em segundo lugar, como independente, na lista do Bloco de Esquerda que encabecei como candidato à Câmara Municipal de Viseu, nas eleições autárquicas de 9/10/2005. Não fomos eleitos vereadores, mas demos o nosso contributo para a eleição de Graça Marques Pinto, a primeira pessoa a ser eleita deputada municipal do Bloco de Esquerda, em Viseu. As minhas sentidas condolências a toda a família e amigos. Até sempre, Fidalgo!