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Não há paz sem a libertação da Palestina

A narrativa que vê o conflito Israelo-Palestiniano como um assunto demasiado complexo deve ser desmistificada, apesar de ser um tema que dura, pelo menos, desde 1948.
Protesto de palestinianos e ativistas israelitas em Jaffa, relembrando a Nakba, 15 de maio de 2021 – Foto de Keren Manor/ActiveStills, publicada em https://electronicintifada.net/

Desde a criação do Estado de Israel, em 1948, que o território anteriormente conhecido como Palestina é palco de tensões e intervenções militares que resultam em milhares de feridos e mortos. Esta questão arrasta-se há décadas sem fim à vista.

Diversas foram as iniciativas feitas até hoje para tentar uma resolução entre Israel e os palestinianos, todas elas terminaram sem sucesso. Será este tema irresolúvel? Será culpa dos palestinianos? Será falta de vontade de um compromisso com Israel? A verdade é que a culpa recai muito pouco sobre os palestinianos e, quase na totalidade, sobre os diversos governos israelitas.

As decisões de Netanyahu continuam a limpeza étnica dos Palestinianos, e a materializar, de forma ilegal, a impossibilidade de uma resolução pacífica e satisfatória para os mesmos.

Exemplo mais recente disso está a acontecer em Jerusalém Oriental, mais precisamente em Sheikh Jarrah e em Silwan, onde 1.300 famílias palestinianas correm o risco de serem expulsas das suas casas para serem ocupadas por colonos israelitas. Recorde-se que o que está a acontecer em Sheikh Jarrah foi um dos dois acontecimentos que levou o Hamas a lançar rockets para Israel.

Seria de esperar uma mudança de comportamento por parte do Governo de Netanyahu após o cessar-fogo. No entanto, no dia seguinte, forças israelitas voltaram a invadir o terreno da Mesquita e desencadearam uma nova operação que levou à prisão de mais 500 palestinianos com nacionalidade Israelita sob o pretexto de garantir a ordem em Israel.

A par desta decisão, as forças de segurança israelitas prenderam, desde 9 de Maio, 1.550 cidadãos palestinianos de Israel, que participaram em demonstrações de apoio aos palestinianos a viver nos territórios ocupados. Os acordos de Oslo celebrados entre 1993 e 1995 não permitem esses atos por parte de Israel, mas a realidade tem demonstrado que os direitos do povo Palestiniano não têm passado do papel.

Muitas vezes vistos como a maior conquista entre Israel e os palestinianos, os Acordos de Oslo foram, na verdade, o que cristalizou e legitimou a ocupação militar ao contrário do pretendido.

Foi sob a vigência destes acordos, e com beneplácito dos países ocidentais, que Israel aumentou exponencialmente a construção de colonatos e de colonos a viver em território ocupado palestiniano (de 115 mil em 1993 passaram a 750 mil colonos a viver na Cisjordânia e Jerusalém Oriental); começou a construção de muros que, quando terminados, terão 700 quilómetros de comprimento e 8 metros de altura (85% construído em território ocupado); aumentaram os ‘checkpoints’ pelos quais os palestinianos precisam obrigatoriamente de passar, e apenas com autorização israelita, para se deslocarem para Israel, Jerusalém Oriental e dentro da Cisjordânia.

Tudo isto tem consequências devastadoras para gerações de palestinianos. Para além de os últimos ataques israelitas terem feito 248 vítimas, entre elas 66 crianças, os bombardeamentos atingiram 17 hospitais e clínicas, inabilitando inclusive o único laboratório responsável pela realização de testes à Covid-19.

Viver na Palestina implica menos 10 anos de esperança de vida em comparação com o lado israelita, ter uma mortalidade materna quatro vezes superior, uma mortalidade infantil oito vezes superior, e gastar apenas um oitavo do que se gasta em saúde em Israel

Viver na Palestina implica menos 10 anos de esperança de vida em comparação com o lado israelita, ter uma mortalidade materna quatro vezes superior, uma mortalidade infantil oito vezes superior, e gastar apenas um oitavo do que se gasta em saúde em Israel. Acresce que 68% dos palestinianos vivem em pobreza alimentar e estima-se que 80% das crianças palestinianas sofrem de stresse pós-traumático.

Tudo isto vai para além dos momentos mais visíveis e mediatizados de intervenção militar Israelita, mostrando que é um problema estrutural que bloqueia os direitos humanos e saúde de todo um povo.

Sim, também existe violência do lado Palestiniano, mas esta não pode ser comparada à perpetrada pelo Estado de Israel contra uma população que vive constantemente na ausência dos seus direitos humanos. Onde estará o limite ao que é exigido aos palestinianos? Quando irá o Ocidente deixar de compactuar com um regime de apartheid que está permanentemente contra o direito internacional?

Quando irá o Ocidente deixar de compactuar com um regime de apartheid que está permanentemente contra o direito internacional?

No curto prazo, é imperativa a existência de um mediador isento que garanta a materialização da Resolução 242 do Conselho de Segurança das Nações Unidas com a criação do Estado Palestiniano nos 22% do território ocupado por Israel, em 1967. Enquanto isto não acontecer, é crível que existam demonstrações públicas de insatisfação e violência do lado palestiniano.

A narrativa que vê o conflito Israelo-Palestiniano como um assunto demasiado complexo deve ser desmistificada, apesar de ser um tema que dura, pelo menos, desde 1948. O conflito entre Palestinianos e o Estado de Israel não é mais que uma luta anti-colonial e anti-apartheid, onde num lado temos uma uma força ocupadora materializada por um Estado.

Não se trata de religião, não se trata de anti-semitismo, trata-se de direitos humanos e de direito internacional. O que está em causa são os direitos humanos e a autodeterminação de todo um povo.

Artigo publicado no “Jornal Económico”, a 7 de junho de 2021

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