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Não ficar a meio da ponte

O ano que agora chega será recheado de momentos importantes em que seremos chamados a decidir sobre a nossa vida coletiva.

As eleições de maio, para o Parlamento Europeu, decorrem num contexto em que a extrema-direita e outras forças políticas ultraconservadoras e xenófobas ambicionam adquirir uma representação inédita, fruto da sua ascensão e implantação pela Europa fora.

A sua chegada ao poder em vários países europeus e a sua crescente representação minam a democracia, põem em causa os direitos sociais e as conquistas da luta pela igualdade de género, ao mesmo tempo desenvolvem políticas xenófobas - veja-se o que sucedeu recentemente na Dinamarca onde o governo de coligação com a extrema-direita isola migrantes “indesejados” numa ilha. A solução da extrema-direita é impor retrocessos civilizacionais, dividir e castigar. Em última análise, pôr em causa a democracia.

A resposta a uma União Europeia que nos amarra com o colete de forças dos tratados europeus e que propõe agora cortar apoios aos países e regiões com mais dificuldades, entre as quais os Açores, só pode ser aquela que reforça os serviços públicos, defende os direitos do trabalho, procura erradicar todas as formas de discriminação e que tenha a solidariedade entre os povos e a justiça social como eixos centrais.

Como a realidade vai infelizmente demonstrando, não há países imunes ao regresso da extrema-direita e dos ultraconservadores. Da Hungria, a Espanha, passando pela Alemanha, Áustria e França, para não falar do Brasil e dos EUA. Se em Portugal a sua sombra é quase inexistente não é porque tenhamos uma qualquer vacina contra o fascismo. O que barra o seu reaparecimento é haver quem defenda os serviços públicos, a valorização do trabalho e lute contra todas as discriminações. É haver quem apresente alternativas ao beco sem saída dos tratados europeus e ao castigo a que são sujeitos os povos nas crises.

Mas são precisos mais avanços. Avanços que transponham o dogma do déficit que, sempre que se quer ir mais além do que a lenta recuperação do que se perdeu, é invocado como barreira intransponível e até desejável.

Esse debate continuará a fazer-se durante este ano e é a questão de fundo na escolha da nova Assembleia da República. A direita que quis ir convictamente além da troika e que, hipocritamente, finge-se preocupada com os serviços públicos - quando foi a principal responsável para a sua degradação - tem um programa oculto: o regresso aos cortes e às privatizações.

O caminho proposto pelo PS fica pela recuperação de rendimentos e leva a uma degradação lenta dos serviços públicos por via da escolha em seguir diligentemente as exigências (do presidente) do Eurogrupo e da Comissão Europeia. A alternativa apresentada pelo Bloco de Esquerda coloca em primeiro lugar os serviços públicos, a valorização do trabalho e o combate sem tréguas pela justiça social.

O caminho que se fez, desde 2015 até aqui e que permitiu estancar a sangria da austeridade valeu a pena porque fez a diferença na vida de milhões de portugueses. Mas também deixou claro até onde esta relação de forças permite ir.

Agora, precisamos de mais força para continuar o caminho e não ficar a meio da ponte.

Sobre o/a autor(a)

Coordenador regional do Bloco de Esquerda/Açores
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