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Não existe amor em Madrid

Esta sentença é o xeque-mate a uma solução negociada: a Catalunha será submissa ou não será.

Madrid arrisca-se a ficar do lado errado da história. Parece que Espanha não aprendeu nada com meio século de ditadura assente num férreo espanholismo, nem com a repressão violenta das expressões nacionais. O castelhanismo, outrora arma da aristocracia, é agora empunhado para servir o interesse da elite económica numa Espanha una comandada a partir de Madrid.

Prova disso é a sentença aplicada aos nove líderes catalães condenados no processo do referendo de independência em 2017 e da manifestação de 20 de setembro de 2017. O antigo vice-presidente da Generalitat (Governo catalão) Oriol Junqueras, 13 anos de prisão. Três ex-conselheiros, Raül Romeva, Jordi Turull e Dolors Bassa, 12 anos de prisão. Dois ex-conselheiros, Josep Rull e Joaquim Forn, 10 anos e meio de prisão. A ex-presidente do Parlamento, Carme Forcadell, 11 anos e meio de prisão. Os líderes da Assembleia Nacional Catalã e da associação Òmnium, Jordi Sànchez e Jordi Cuixart, nove anos de prisão. Presos por organizarem manifestações. Presos por organizarem uma das maiores manifestações democráticas, um referendo.

Uma sentença que aplica penas mais pesadas aos independentistas catalães do que aos autores do golpe de Estado desencadeado por militares franquistas em 1981. Um julgamento em que, de acordo com a Federação Internacional dos Direitos Humanos, se praticaram “atentados fundamentais contra o direito de defesa”. Uma polícia que reprime manifestações com balas de borracha proibidas por lei. Um Estado que utiliza uma lei antiterrorista para perseguir e prender artistas, dirigentes associativos e ativistas políticos.

É inevitável ler nesta atitude as lições não aprendidas da democracia e a aproximação do PSOE ao espanholismo mais reacionário que sempre existiu nos partidos de direita. Não há nenhum ângulo sob o qual o Governo de Espanha escape à evidência de uma deriva autoritária.

Foi contra essa deriva que Pep Guardiola apelou a uma tomada de posição da comunidade internacional, para defender a democracia e o diálogo. Isto já não é sobre a posição de cada um sobre a independência. É sobre respeito pelos direitos humanos. Mas Madrid não quer falar. Com esta sentença, que Sanchez poderia ter evitado, o Governo de Espanha dispõe a última pedra no tabuleiro, é xeque-mate a uma solução negociada: a Catalunha será submissa ou não será.

Esse é o maior erro de Madrid. Mesmo sabendo que é inútil reprimir um conflito político nos tribunais, insistem em recusar o diálogo. Esta sentença não é uma tentativa de resolução, é um exercício de cobardia, humilhação e crueldade. Destroem a vida de 9 para dar uma “lição” ao povo da Catalunha.

O maior erro de Madrid foi querer “ser a cicatriz risonha e corrosiva, marcada a frio, a ferro e fogo, em carne viva” na dignidade de um povo inteiro. Esses erros pagam-se caro. De nada valerá então justificar tudo pelo amor a Espanha. Porque neste julgamento não existiu amor em Madrid, apenas uma violenta obsessão.

Artigo publicado no jornal “I” em 17 de outubro de 2019

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda, licenciada em relações internacionais.
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