No dia 10 de novembro de 2023 houve a assinatura de dois protocolos de colaboração entre o Politécnico do Porto (P.PORTO), a Universidade do Porto (UP) e os Serviços Sociais da Guarda Nacional Republicana (GNR) e da Polícia de Segurança Pública (PSP) com o objetivo de permitir aos agentes das forças policiais acederem aos serviços de alimentação das instituições de ensino a partir de dezembro.1 Este desenvolvimento não aparece do nada, uma vez que já no início do ano o ministro da Administração Interna afirmou essa vontade, embora num espírito nacional.2 Trata-se de uma decisão muito mal pensada essencialmente por duas razões.
Em primeiro lugar, porque as cantinas já se encontram cheias, havendo enormes filas para ter as refeições. Quando as condições de conforto não estão garantidas para a própria população académica que é suposto servirem, como se pode pensar em responsabilizar estas entidades pela alimentação de mais gente?
Em segundo lugar, juntar estudantes e agentes policiais num mesmo espaço faz lembrar um clima muito pouco democrático, principalmente numa altura onde se fazem sentir vozes estudantis por uma mudança nas políticas ambientais.3 Como pode o ministro da Administração Interna falar em «fomentar a convivência» entre estudantes e polícias quando temos notícia de uso desproporcional de força4 e uma detenção por uma pessoa ter dito para verem se a polícia não roubou nada enquanto esta os revistava5? Como se pode ver isto se não como uma forma de dissuadir os alunos de se manifestarem, ainda por cima quando a direção da FLUP em maio os silenciou?6 O próprio ministro parece não esconder o que está subentendido ao dizer «[os agentes podem] socializar com os estudantes, que vivem muitas vezes momentos que exigem uma atenção especial»7. Uma atenção especial pela polícia?
Há uma vilificação de ativistas, mesmo daqueles que protestam pacificamente, que colocam o direito à manifestação em causa. As metas para apaziguar as alterações climáticas estão ainda muito aquém.8 Estes jovens que estão a ser detidos estão do lado certo da História, a defender uma Terra habitável, a defender vidas. Esta medida das cantinas pode resultar numa situação tumultuosa que só vai dar a ganhar à extrema-direita.
Que se note, por fim, que ninguém se deu ao trabalho de disponibilizar publicamente os protocolos. Não há respeito pelos estudantes, nem pela academia.
Notas:
2 https://rr.sapo.pt/noticia/pais/2023/01/19/psp-e-gnr-vao-poder-comer-nos-refeitorios-das-universidades/316524/
3 https://expresso.pt/sociedade/2023-11-24-Mais-agressivos-e-violencia-progressiva-universidades-e-policias-preocupadas-com-ativistas-jovens-defendem-se-e-falam-em-repressao-9acc5a5e