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Não brinquem com coisas sérias!

Fomos surpreendidos na passada semana com um leque de declarações do presidente do governo regional, do vice-presidente e do secretário regional da saúde e desporto sobre o processo de vacinação contra a COVID-19.

Destas declarações destaco a do vice-presidente do governo em que assumia que não estava de acordo com a distribuição de vacinas feita para os Açores e que se devia ir buscar vacinas fosse onde fosse, à China ou à Rússia, se fosse preciso.

Na mesma linha se pronunciou o presidente do governo e o secretário regional da saúde desporto.

Vivemos tempos difíceis para as pessoas, para as famílias e para as empresas. São tempos sombrios para todos e todas aqueles e aquelas que perderam os seus empregos, para as pequenas empresas que não tem meios de suportar esta crise, e principalmente para quem viu os seus entes queridos sofrer ou até falecer.

Não é, pois, a alegria o sentimento que caracteriza os tempos de hoje. Por isso mesmo dispensamos liminarmente que os principais responsáveis do governo regional no combate à pandemia venham para a praça pública com estes sintomas de desnorte eivado de um populismo panfletário.

Não tenho condições técnicas para discutir a relação entre a epidemiologia e a condição arquipelágica e insular da nossa região. Mas de uma coisa tenha a certeza: um dirigente político responsável só faz declarações destas quando tem a solução na mão, pronta a apresentar. Pelos vistos não é o caso.

O governo regional quer fazer eco de uma pretensa onda reivindicativa existente na região para esconder as suas incapacidades.

Vamos por partes.

Pelos dados que são públicos, o número de vacinas distribuídas entre continente e regiões autónomas é proporcional à população. Assim como é equivalente a percentagem da população vacinada até à data no continente e nos Açores.

A falta de vacinas é um problema com que se debate toda a Europa, muito porque os interesses de algumas farmacêuticas se sobrepõem ao interesse das populações.

Como bem apelaram António Guterres e a OMS, devem ser utilizadas todas as ferramentas para aumentar a produção de vacinas, incluindo a transferência de tecnologia e a isenção de direitos de propriedade intelectual.

Assim, muito mais rapidamente se impediria a propagação do vírus e reduziria a probabilidade de novas estirpes colocarem em causa a vacinação.

Mas para estes nossos dirigentes tudo isto é de somenos. O que interessa é mostrar revolta e indignação para açoriano ver.

Mas já agora coloco algumas perguntas:

Está o governo regional disponível para vacinar a população açoriana com vacinas que não estão aprovadas pelas autoridades do medicamento europeia e nacional?

O governo regional argumenta com a condição arquipelágica e a débil estrutura do SRS para justificar as suas intenções. Sendo essa debilidade real com que base científica e epidemiológica sustenta o governo a sua avalanche de declarações?

O governo regional aponta como a resolução deste assunto a existência de tratados internacionais que deveríamos acionar. O que já fizeram nesse sentido? E quais foram as respostas?

Muitas mais questões concretas poderiam ser colocadas, mas termino apelando aos nossos governantes que, se lhes for possível, não brinquem com coisas sérias. Se têm soluções, apresentem-nas e deixem-se de estados de alma para sustentar manobras políticas.

Sobre o/a autor(a)

Deputada do Bloco de Esquerda na Assembleia Regional dos Açores e Coordenador regional do Bloco/Açores
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