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Na loja do Nuno

O Nuno é um ilustre exemplar daquilo a que se designou chamar um empresário de sucesso, um exemplo vivo do triunfo da meritocracia e dos cânones do neoliberalismo.

Desde pequenino que o Nuno queria ser rico, era o seu sonho de menino. Então, o Nuno estudou, pediu uns trocos ao primo rico e abriu o seu próprio negócio: uma versão gourmet de uma pastelaria, meio café, meio padaria, com uns móveis para o rústico e muito, mas mesmo muito marketing à mistura.

Abriu uma, depois outra e, alguns meses depois, já tinha aberto 10 padarias pós-modernas, nalguns sítios estratégicos da capital. Foi então que o Nuno, que já era rico, se lembrou, a meio de um sunset num rooftop lisboeta, enquanto digeria um gin com batata-doce, que, além de rico, também queria ser famoso. Contratou uma agência de comunicação, marketing e assessoria de imprensa e começou a espalhar bitaites (perdão, soundbytes) pela provinciana imprensa cá do burgo.

Afinal o Nuno podia dizer o que queria, porque o Nuno é rico, tem uma empresa “unicórnio” e um feeling para o business. Ao comum dos mortais, restava escutar com muita atenção e fazer a devida vénia. Convenhamos que o Nuno não uma pessoa qualquer, é um CEO com killer instinct. Acontece que o bom do Nuno não levou a sério as aulas de media training e começou a difundir mensagens polémicas e que começaram a fazer mossa nas imaculadas redes sociais das suas lojas de bolos. Mas, “afinal porque tanta polémica?”, terá pensado. “Não é isto que nos distingue, a nós, homens de sucesso?”, matutava surpreendido.

São várias as atoardas que o Nuno espalhou pelos jornais, rádios e canais de TV. A primeira, datada de janeiro e a propósito da eventual baixa da TSU, altura em que revelou à SIC que 25% dos seus funcionários recebia o salário mínimo, pugnava pela “flexibilização da contratação, do despedimento e do horário extra de trabalho”. Dando voz à sua indignação, o Nuno defendia com unhas e dentes que “há imensas coisas que são pesadíssimas para as organizações na área dos serviços, como a nossa, que não nos servem”, sustentando estar “permanentemente a ter de fazer uma ginástica para dar uma resposta ao que é o mercado de trabalho hoje”, uma realidade que, para ele, “é o entendimento entre o que a entidade patronal decide e os colaboradores também necessitam”. Afinal quem melhor do que um CEO para saber do que os “colaboradores” necessitam.

Na ressaca de um intenso evento de teambuilding, o Nuno voltou à carga há alguns dias atrás, para explicar o que tinha ficado subentendido no final da primeira bujarda. “O espírito de equipa vale muito mais do que o salário base”, garantia ao Diário de Notícias. A chuva de críticas voltou antes mesmo do clima outonal e a equipa de marketing da Padaria Portuguesa voltava a ter trabalho redobrado nas redes sociais. Não faltaram casos de denúncias de atropelos laborais e situações de exploração ou até de quase escravatura.

Ainda assim, a Padaria Portuguesa prepara-se para contratar 550 novos “colaboradores” para chegar às 70 lojas no final de 2019. Tendo em conta que boa parte dos seus 1.200 trabalhadores (muitos em regime de turnos) ganha 580 euros mensais de salário base, de acordo com declarações do próprio Nuno Carvalho e que a empresa pode atingir os 40 milhões de faturação ainda este ano, poder-se-á dizer que estamos perante o neoliberalismo no seu melhor: alta produtividade, salários miseráveis e máxima precariedade. Para completar o ramalhete, falta a tal “flexibilização do mercado laboral” que o CEO da Padaria Portuguesa tanto apregoa. Afinal, “nem todos nasceram para ser patrões”, terá aprendido, entre um e outro colégio. “Estudassem, que eu também estudei”, vociferará entredentes.

A loja do Nuno é apenas mais um exemplo de que, por mais que a grande maioria das empresas lucrem, esse dinheiro nunca é transposto para quem trabalha nem utilizado para a melhoria das condições de vida dos seus funcionários. É distribuído pelos acionistas, donos, sócios-gerentes e pelos Nunos Carvalhos desta vida e não gera riqueza nem cria valor. Cria precariedade, baixa o poder de compra dos trabalhadores e não contribui para uma economia mais competitiva nem para uma sociedade melhor.

Este é um excelente exemplo de que Catarina Martins tinha razão quando defendia, ainda em 2015, a baixa do IRS e o regresso do IRC às taxas de sempre, sustentando que “o país precisa de criação de emprego e as duas baixas de IRC a que assistimos nos últimos anos nunca criaram mais empregos, apenas favoreceram movimentos financeiros que não têm nada de investimento produtivo e não geraram riqueza". É por isso que Cristas não tem razão quando pede para incluir no Orçamento de Estado 2018 a baixa do IRC. E é nestas alturas que se vê quem está do lado do Nuno e quem está do lado de quem o Nuno explora.

Sobre o/a autor(a)

Jornalista e deputado municipal do Bloco de Esquerda
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