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Na crise climática não estamos todos na mesma nave

Os efeitos são mais severos para quem menos contribuiu para as alterações climáticas. Já os principais responsáveis tentam criar a sua escapatória ou vendem a ilusão de uma solução tecnológica que permita continuar o negócio como se nada se passasse.

No recente “Don’t Look Up”, os milionários têm uma nave espacial para fugir a um eventual fim do mundo. Na realidade, há um ano, o senador Ted Cruz foi para uma estância de férias em Cancun (México) enquanto no Texas se vivia uma crise energética em resultado de fenómenos climáticos extremos. Nos fogos florestais da Califórnia em 2019, milionários contrataram bombeiros privados para si próprios. A crise climática é tão certa como não estarmos todos na mesma nave espacial.

Os efeitos são mais severos para quem menos contribuiu para as alterações climáticas. Já os principais responsáveis tentam criar a sua escapatória ou vendem a ilusão de uma solução tecnológica que permita continuar o negócio como se nada se passasse. O problema é que foi este modelo de economia que nos trouxe a crise climática ao mesmo tempo que agravou as desigualdades sociais.

Elon Musk já ofereceu um prémio de 100 milhões de euros a quem crie tecnologias para remover dióxido de carbono da atmosfera. É a crença na tecnologia de quem está entretido numa corrida espacial de milionários, até para turismo, onde uma só viagem emite mais CO2 que 12% da população mundial mais pobre durante toda a sua vida. Até o “milionário do momento” e que se diz tão disruptor pensa dentro da caixa e recomenda como solução para a crise climática a generalização de uma taxa de carbono. Basicamente, o mercado teria que atribuir um preço às emissões.

A política pública dominante tem de facto ido nesse sentido: o mercado de carbono europeu, que a conferência das nações unidas tenta globalizar; as taxas de carbono; a substituição dos impostos sobre o trabalho por taxas sobre comportamentos ambientais indesejados e, em sentido inverso, a miríade de benefícios fiscais. No entanto, a fiscalidade verde mantém tudo igual a nível da produção e agrava as desigualdades sociais. É a política que destrói a progressividade e a justiça fiscal, agrava os custos de vida de quem tem poucos rendimentos e permite à elite mundial continuar o negócio lucrativo à custa do planeta.

Outro exemplo: a petrolífera BP. Anuncia que está a caminho da neutralidade. Mas está a dizer mesmo o quê? Que continua a vender gasolina e desconta dessas emissões de carbono alguns projetos que financia, por exemplo, construção de fornos mais eficientes para comunidades rurais no México ou a proteção florestal na Zâmbia. Pequenas melhorias para garantir que tudo continua como está. Novamente, as compensações de emissões visam garantir o negócio de quem nos trouxe o desastre e reforçam ainda as relações de poder entre o norte e o sul.

Em todo a lengalenga empreendedora não há preocupação com os problemas reais das pessoas reais. Em Portugal quase dois milhões de pessoas vive com frio em casa por insuficiência económica. Somos um dos países europeus com maior pobreza energética apesar do nosso clima mais ameno. Aumentar o preço ou taxar a energia resultaria aqui em apenas mais pobreza. A atribuição de benefícios fiscais seria de curto alcance, beneficiando especialmente quem tem rendimentos acima da média e esquecendo todos os outros.

A solução não passa por encarecer bens essenciais, especialmente quando não há alternativas. É necessário um plano ambicioso de intervenção nas habitações para melhorar a sua eficiência, reduzir o gasto energético, garantir renováveis e com isso eliminar a pobreza energética. De igual modo, não é a onerar mais os combustíveis de quem não tem outra alternativa de deslocação casa-trabalho que o seu automóvel. É necessária a densificação de transportes públicos, apostar numa grande rede ferroviária, descarbonizar os transportes, promover os meios suaves e ativos e caminhar para a gratuitidade dos transportes públicos. Alterar de tal forma a estrutura da economia que aquilo que hoje consideramos essencial, como os combustíveis fósseis, passem a ser algo do passado e que fica no solo, inexplorado.

Em todas as esferas da nossa vida coletiva esta transformação precisa de investimento público, de criação de emprego e de uma mais justa repartição da riqueza. É uma transformação colossal para o planeta que só a sociedade democrática e solidária pode conseguir. Basta ver a maior transformação na mobilidade nas últimas décadas: o carro SUV (mais pesado e maior) substituiu o automóvel tradicional à custa de uma subida drástica das emissões e de espaços público menos seguros. Foi esta a resposta do mercado e agora sonha com os túneis para carros de Musk. Precisamos mesmo de mais ambição, pensar para lá da economia atual e reorganizar a sociedade para responder a esta emergência.

Sobre o/a autor(a)

Biólogo. Dirigente e deputado do Bloco de Esquerda
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