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Na cabeça de Tsipras

Não há nenhum espaço sem austeridade dentro do euro. Não há nenhum espaço sem austeridade dentro da União Europeia. A banca alemã e francesa continuam intocadas. A crise continua.

Dirigiu-se ao Parlamento Grego antes da votação que aprovou o novo pacote de austeridade para um novo empréstimo e falou aos deputados: o que está agora à frente da Grécia é “um campo de minas, cheio de armadilhas”, fiz “tudo o que era humanamente possível em circunstâncias difíceis” e nunca pedi um voto no Não “para uma rutura ou para a saída do euro”. Alexis Tsipras, primeiro-ministro grego, arrematou “Concordamos que o pacote de reformas que nos é exigido é duro. Mas temos a possibilidade de conseguir um acordo que evite a nossa saída do euro.”. O pacote foi aprovado mas a maioria absoluta está em risco com vários deputados do Syriza a absterem-se e a votarem contra.

A saída da Grécia do euro está presente há anos na luta política como ferramenta de pressão. Da força fez-se fraqueza e a persistência em nem sequer equacionar a saída do euro fragilizou o Syriza. Tsipras foi eleito para acabar com a austeridade, não para salvar o euro, e com base nesse programa o Syriza recebeu uma votação próxima da maioria absoluta em janeiro. A chantagem da Europa austeritária sempre esteve em cima dos gregos, que votaram no Syriza apesar disso. Depois de meses de negociações o governo grego, embora impetuoso na Europa dos tecnocratas, foi cedendo as suas linhas vermelhas. Acabou num referendo que revigorou a força da proposta anti-austeridade, quando mais de 61% disseram não à proposta da troika. O resultado deixou Tsipras fortíssimo, com legitimidade incomparável e poder internacional trazido pela sua mensagem de outro rumo para a Europa. Centenas de manifestações por toda a Europa pelo "Não", nem uma pelo "Sim", excepto nos gabinetes de Bruxelas, Frankfurt e Nova Iorque.

Menos de uma semana depois, precisamos entrar dentro da cabeça de Alexis Tsipras para tentar compreender o que passou. A chantagem institucional não é novidade. O maquiavélico ministro Schäuble, qual Dr. Strangelove de Kubrick, empurrando a Grécia para fora do euro sem hesitações para aterrorizar a França terá desconcertado Tsipras, no preciso momento em que se dividiam os países em relação ao Grexit, em que as reuniões se partiam? Depois de meses com os tecnocratas da troika, terá feito percurso a ideia de que as “reformas estruturais” são mais do que assaltos a salários, pensões e estado social, recessão? Terá o bloqueio aos bancos levado a melhor? Ameaça de guerra civil, como referia o ministro Kammenos? Poucos dias antes de ser eleito, Tsipras dizia que não deviam ser feitos “mais nenhuns sacrifícios pelo euro”, mas apelou aos deputados que aprovassem um programa draconiano para evitar a saída. Porquê rasgar o programa eleitoral? Colocar-se do lado dos 39% que votaram Sim derrotados há uma semana, sem ter sequer garantia de reestruturação de dívida ou de que o programa seja aprovado? No fim, a moeda de troca mudou de lado e a expulsão da Grécia do euro foi jogada contra a Grécia e não contra a troika.

Os contornos do acordo já são conhecidos: a proposta aprovada é mais gravosa do que a referendada: 13 mil milhões de euros de cortes. Mas é para três anos, quando a que foi chumbada pelo povo grego era de 8 mil milhões de cortes para receber uma extensão no valor de 7,2 mil milhões de euros em cinco meses, e esta é um resgate para três anos no valor de 78 mil milhões de euros. A reestruturação da dívida, central, é nebulosamente contemplada (embora as medidas de austeridade sejam concretas). Mas o que está em causa não são números.

É difícil imaginar a pressão que Tsipras terá enfrentado nos últimos meses. Mas é mais fácil colocarmo-nos na cabeça dos milhares de gregos e europeus que sofrem permanentemente no seu desespero por emprego, por salários, por comida, por dignidade e ter que considerar que mais tinha que ser feito. A maioria deles votou por Tsipras e pela sua proposta anti-austeritária. Não era nem nunca ninguém achou que fosse ser fácil. No fim, atira-se a Grécia de volta à crise, mais fragilizada, derrotada anímica e politicamente. Perde força uma alternativa europeia contra a austeridade mas também algo fica claro: não há nenhum espaço sem austeridade dentro do euro. Não há nenhum espaço sem austeridade dentro da União Europeia. A banca alemã e francesa continuam intocadas. A crise continua. Até ao próximo episódio

Sobre o/a autor(a)

Investigador em Alterações Climáticas. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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