Se é certo que o Bloco é um setor essencial no campo da esquerda, é tempo de reconhecer os erros cometidos e traçar novos caminhos.
“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, / Muda-se o ser, muda-se a confiança: / Todo o mundo é composto de mudança, / Tomando sempre novas qualidades.”
Das eleições autárquicas, realizadas no passado dia 12 de outubro, é possível retirar diversas ilações. Creio que a mais importante assenta numa profunda ironia: a vitória esmagadora da coligação de direita, liderada por Mário Constantino. A renovação do mandato não é motivo de surpresa, dado que apenas sob circunstâncias bastante particulares é que um Presidente da Câmara não é reeleito. Ainda assim, face a um Executivo camarário cujo mandato foi marcado por casos e polémicas, à semelhança da governação PS, assim como a uma tremenda inação, as e os barcelenses decidiram atribuir uma maioria reforçada a esta coligação. E há várias razões para isso mesmo.
Desde logo, a viragem à direita que se verifica no país e a que o nosso concelho não é alheio. Desde o número de deputados até ao discurso e medidas dos partidos políticos, são vários os aspetos que ilustram a profunda transformação política da sociedade, com o consequente reflexo na política. Neste momento, a direita é maioritária no país.
Por outro lado, do ponto de vista estritamente local, as principais candidaturas da oposição eram manifestamente fracas. Por parte do PS, foi apresentada uma figura intimamente ligada à governação de Miguel Costa Gomes, que não entusiasmou as próprias bases do partido e cujo programa consistiu em defender o legado do seu antecessor. Aliás, desde 2021 que o PS Barcelos parece estar sem rumo e incapaz de ser ou fazer, sequer, oposição.
Já a extrema-direita do CH apostou, à semelhança do resto do país, em simular que André Ventura era a candidatura local, e vice-versa. O método é sempre o mesmo: enquanto escondem os seus rabos de palha e enganam as pessoas, lançam acusações e desviam os debates para o insulto. Com soluções simplistas para problemas complexos, conjugado com promessas que procuram aliciar o eleitorado, vão procurando afirmar-se como uma alternativa. No entanto, na hora da decisão, revelam-se estar ao serviço dos interesses de sempre e, acima de tudo, de si próprios.
Quanto à esquerda, não me inibo a fazer qualquer exercício de autocrítica, essencial para reconstruir este campo. Com dois deputados na Assembleia Municipal até a estas eleições, o Bloco de Esquerda, foi a figura de proa da oposição, séria e coerente, no mandato que agora termina. Além disso, desenvolvemos uma campanha de proximidade e envolvimento, mobilizando o povo de esquerda e cobrindo, praticamente, todo o concelho, pese embora os poucos recursos à disposição. A própria Joana Neiva, candidata do Bloco à Câmara Municipal, foi um trunfo da candidatura.
Na verdade, o Bloco fica de fora dos Órgãos autárquicos, não por falta de esforço ou de reconhecimento das e dos barcelenses, mas sim devido ao contexto destas eleições e à situação que o partido enfrenta, a nível nacional. Se é certo que o Bloco é um setor essencial no campo da esquerda, é tempo de reconhecer os erros cometidos e traçar novos caminhos.
De qualquer modo, só o povo é soberano. Tudo o que referi contribuiu para o desenlace ocorrido, embora, devido a limitações de espaço, não poder abordar mais aspetos a considerar e que foram determinantes para o resultado destas eleições.
Iniciando-se agora um novo mandato, resta ver como é que os destinos do concelho serão governados nos próximos quatro anos. Veremos o que acontece, ainda que as perspetivas não sejam boas: basta olhar para o que parece ser mais um adiamento da construção do novo Hospital em Barcelos, por parte do Governo. Lamentavelmente, o povo optou por mais do mesmo.
Artigo publicado no jornal Barcelos Popular a 6 de novembro de 2025