Movimento LGBTQI+: anticapitalista e emancipatório

porBeatriz Realinho

18 de junho 2023 - 0:50
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Enquanto ativistas do Bloco de Esquerda lutamos por uma agenda política que seja verdadeiramente LGBTQI+ e anticapitalista, tendo em conta as dificuldades e desafios que enfrentamos.

As marchas como espaços revolucionários

Ao pensarmos nas marchas que vemos acontecer por todo o país temos que olhar para as mesmas como movimentos politizados, que marcam a agenda política com debates e reivindicações importantes para a população LGBTQI+, pois apenas assim elas podem ser transformadoras. Esta politização acontece quando se combate a lógica neoliberal e mercantilista que se tenta apropriar desses espaços, passando este pela construção coletiva de um movimento anticapitalista e emancipatório, que represente e inclua todas as pessoas ao falar de: saúde, educação sexual inclusiva, habitação, do combate à precariedade. Temos consciência de que ao vivermos num mundo capitalista é normal que exista mercado LGBTQI+, porém é importante que em coletivo não deixemos que os nossos espaços sejam colonizados pelo mesmo, pois este nunca é democrático. Sonhamos que ao fazermos parte da construção deste movimento estamos a pensar um mundo novo.

Uma vida boa: um teto, um trabalho

O aumento incontrolável dos preços das casas e das rendas atirou-nos para a atual crise de habitação que vivemos e tal como em todas as crises somos marginalizadas por este sistema. Esta situação faz com que pessoas LGBTQI+ tenham que voltar para casas de familiares que não as aceitam, pondo em causa os processos de autodeterminação e descoberta de muitas de nós, em outros casos provoca situações de co-habitação violentas com pessoas que nos são desconhecidas. Existe ainda a discriminação sistemática sobre casais e famílias LGBTQI+ por parte de senhorios homofóbicos. Somos aquelas que ousamos ter uma casa para viver, e somos aquelas que sabemos que a luta LGBTQI+ e a luta pela habitação têm de ser feitas em conjunto.

Assim, percebemos que a discriminação que existe não é apenas simbólica, mas também material, as dificuldades sentidas no acesso à habitação também se sentem no acesso ao trabalho. A luta pela visibilidade da nossa existência passa por oportunidades de emprego reais. Tenhamos como exemplo os protestos que temos vindo a presenciar, sobretudo por parte da população trans que sublinham a importância destas questões. É necessário estabelecerem-se compromissos de emprego nas mais diversas áreas, o combate à precariedade, sendo então o acesso ao trabalho uma questão fundamental para uma luta verdadeiramente emancipatória.

1º Fórum LGBTQI+: um projeto político do presente e do futuro

Este ano tivemos o 1º Fórum LGBTQI+, realizado e pensado por ativistas do Bloco que teve como principal propósito aprofundar o debate crítico, construindo e tomando decisões em coletivo que pudessem contribuir para o próprio movimento. Da construção deste fórum nasce um documento importante que faz uma análise bastante completa da história LGBTQI+, que traça as linhas orientadoras de uma agenda política antiliberal e anticapitalista, reivindicando mudanças estruturais, politizando as lutas pela emancipação dos nossos corpos, libertação sexual e revolucionária, combatendo o capitalismo e o cisheteropatriarcado. É necessária continuidade no trabalho feito até aqui. Andámos muito para aqui chegar, mas ainda há muito caminho a percorrer, e o Bloco é a esquerda capaz de o fazer.

Beatriz Realinho
Sobre o/a autor(a)

Beatriz Realinho

Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais. Ativista política e das causas LGBTQIAP+, ambientais e feministas. Autora do podcast “2 Feministas 1 Patriarcado”
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