A oligarquia está nas suas sete quintas. Pela mão da maioria parlamentar PSD/IL/Chega executa uma agressão social em força, no trabalho, na imigração, na habitação. E Montenegro consegue a proeza de colocar o PS a normalizar o processo, fazendo do Orçamento do Estado um produto de bloco central.
O caso é bizarro: Montenegro articula assim uma base parlamentar de 95% dos deputados. Assistimos à decomposição da política tradicional, o que não seria má notícia se esta decomposição não fosse liderada pela oligarquia: o centro é arrastado pela direita e ambos vão a reboque do Chega.
A debilidade da esquerda é o balanço da geringonça. O que ficou inscrito na consciência popular não foram os reais avanços conseguidos com essa aliança, nem as nossas razões depois, contra os orçamentos do PS, nem a crise orquestrada entre Costa e Marcelo para fabricar uma maioria absoluta. O que ficou gravado foi um pós-Covid conduzido por um governo medíocre, que deixou nas suas almofadas financeiras o dinheiro que faltava na saúde, a política de habitação ou a condição do trabalho.
A imagem da esquerda, mesmo após a geringonça, permaneceu colada ao mau governo da maioria absoluta. Não tivemos força para o evitar. E isso não teria mudado, nem mudará, só com palavras. Mudará sempre que conseguirmos interpretar a revolta, ter iniciativa e novos protagonismos na luta. Sem isso, nada será fácil no futuro para nenhum partido da esquerda.
As dificuldades dos partidos não significam que seja impossível erguer lutas. A esquerda italiana está em cacos há duas décadas, mas fez uma greve geral de milhões pela Palestina. Aqui, estamos na véspera de outra greve geral, momento crítico para mudar o ambiente político. E, mesmo num ano tão mau como 2025, houve sinais muito importantes: a maior manifestação de trabalhadores imigrantes da última década, a entrada em cena da juventude negra das periferias de Lisboa, a ampliação da solidariedade com a Palestina nos dias da flotilha. Nestas lutas, a esquerda faz-se maior e quebra o isolamento, disputa os temas do debate público através da mobilização concreta. É aqui que também o Bloco respira.
Não são as dificuldades dos partidos que ditam a necessidade da convergência. O que hoje impõe a convergência é a necessidade de enfrentar o pântano: temos um governo aliado aos neofascistas e sustentado pelo PS.
Nas lutas pelos serviços públicos e pela habitação, pelo trabalho e contra a fascistização da vida social, é necessário identificar as linhas onde fazer a frente. Pensemos então política de movimentos, encorajemos a presença dos militantes, abramos todos os canais de diálogo.
Mas façamos também as contas que toda a gente já aprendeu a fazer: em carrinhos eleitorais separados, estaremos a oferecer vereadores e deputados ao Chega e a contribuir para que o pântano transborde e os neofascistas se tornem a primeira força política - tal como já sucede em vários países da Europa.
O Bloco tem o seu espaço social, que vem da diferença da sua política e do seu programa, da sua visão do mundo e da sua cultura partidária. Tudo isso, bem sabemos, distingue-nos radicalmente de partidos como o Livre ou o PCP. Essas diferenças são tão importantes como a necessidade de convergirmos nas lutas e de oferecermos ao povo uma alternativa eleitoral em torno do que há de comum à esquerda. Um pólo que impeça a redução da democracia aos jogos de poder entre Montenegro e os seus dois parceiros.