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Modo de voo

O fortalecimento de vários fascismos na Europa virou mais uma página de canalhice com o novo líder do Partido Popular (PP) espanhol, Pablo Casado.

Abordando o "inverno demográfico" espanhol, propôs que as mulheres imigrantes ilegais não fossem expulsas do país na condição de darem os seus filhos para adopção. Fê-lo, com esta sensatez de escumalha, durante a sessão de encerramento da Convenção sobre Igualdade e Família do PP, enquadrada num pacote de medidas de apoio à maternidade e natalidade. Rajoy, recém-caído do trono, deve ter corado de vergonha. O racismo explícito destes novos líderes da Direita europeia, mesclados pelo liberalismo e pela demagogia do apelo às classes mais desfavorecidas (contem-me algo novo...), é a barbárie à espera de acontecer. Embora, pelos caminhos dos entretantos, se desfaça depois em desculpas. Os portugueses, dizem as estatísticas, não têm por hábito apresentar queixa por discriminação e crimes de ódio, apesar de cerca de 30% das pessoas inquiridas ter admitido que conhecem alguém que já foi vítima deste tipo de comportamentos ou crimes. O novo modelo da Direita espanhola está a um passo da fronteira. Se preferirmos continuar a adiar queixas e reclamações, vamos acabar a perguntar pela democracia nos perdidos e achados, sem nada a declarar.

O tempo que não se pode perder é peça-chave para colocar em sentido estes novos fascismos. Não deixa de ser curioso compaginar estatísticas com os novos dados relativos às queixas na Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial em Portugal: 346 denúncias em 2018, quase o dobro do ano anterior. Se atentarmos ao passado recente, o número de queixas disparou quase 500% relativamente a 2014, um aumento consolidado de mais de 40% ao ano nos últimos quatro. Os portugueses queixam-se cada vez mais de discriminação racial mas, na senda daquela ideia confortável de que não somos um país assim tão racista, ainda muito pouco para o que deviam. Os brandos costumes e seus sucedâneos.

Soube-se ontem pela caixa negra do avião que caiu na Indonésia em Outubro, que o co-piloto foi encarregado da condução do voo pelo piloto para que este pudesse folhear o manual de instruções da aeronave. A tragédia demorou 12 minutos a acontecer desde a descolagem. "Flight mode" desde Planica, quando nos chegam notícias de que um passageiro de avião foi multado em Portugal por ter o telemóvel em modo de voo. Há muito tempo que estes novos fascismos sobrevoam e aterraram na Europa. Olhando para ela e para o Mundo, é difícil conceber como continuamos a fingir que não temos o manual de instruções.

Publicado no “Jornal de Notícias” a 22 de março de 2019

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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