Mobilidade - a ausência da política de Moedas

porIsabel Pires

20 de maio 2023 - 15:41
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É constrangedor o quanto Lisboa se está a afastar em termos de políticas progressistas de mobilidade das suas congéneres europeias. O tempo passa, Moedas faz muita propaganda, e a mobilidade em Lisboa está cada vez mais caótica.

A mobilidade tem sido, na prática, a maior ausência de políticas públicas em Lisboa. Moedas começou o seu mandato com uma teimosia em acabar com uma ciclovia que funciona, para ter que abandonar a ideia por pressão dos movimentos sociais, que inauguraram o seu mandato com uma das maiores manifestações sobre mobilidade suave de sempre na cidade.

Fora isso, temos a aprovação da gratuitidade dos passes para mais jovens (embora não todos) e mais velhos. Medida positiva, é certo, mas que só viu a luz do dia depois de meses e meses de pressão do Bloco de Esquerda, que também tinha proposta, colocada na gaveta de Moedas.

Aliás, na área da mobilidade, a gaveta de Carlos Moedas não tem fundo para as propostas aprovadas e continuam a não ser executadas.

Zonas de emissão reduzida? Há propostas, foram aprovadas, continuam a não sair do papel. Por ocasião do Dia Nacional do Ar, a 12 de abril, a associação ambientalista ZERO veio defender algo já aprovado por 2 vezes neste mandato na assembleia municipal: a criação de uma zona de zero emissões. As concentrações de dióxido de azoto na Avenida da Liberdade estão novamente acima dos limites definidos pelas diretivas europeias. Apenas nos anos da pandemia estes valores desceram.

Considerando estes dados, que medidas há para reduzir as emissões e o número de carros a circular na cidade? Nenhuma.

As zonas de emissão reduzidas não são atualizadas há anos. Não há um plano efetivo de redução de emissões para a cidade, integrado, que tenha em conta a necessidade de reduzir o número de carros a circular e o necessário reforço do transporte público.

A única coisa que, garantidamente, sabemos que o executivo faz é assinar cartas com outras cidades europeias. A diferença é que essas cidades europeias assinam cartas e concretizam mudanças. Lisboa fica-se pela assinatura e sai mais um anúncio de propaganda do presidente Carlos Moedas.

Um dos pilares fundamentais da política da cidade, aquela que tem potencial de criar alterações profundas que respondam às consequências das alterações climáticas e à necessidade de termos uma cidade de que possamos usufruir, é o pilar que tem sido praticamente ignorado pela coligação Novos Tempos.

E assim vai passando o tempo. E assim vão aumentando os níveis de poluição na cidade. É constrangedor o quanto Lisboa se está a afastar em termos de políticas progressistas de mobilidade das suas congéneres europeias. O tempo passa, Moedas faz muita propaganda, e a mobilidade em Lisboa está cada vez mais caótica.

As obras na cidade avolumam-se, e entre o metro de Lisboa e o plano de drenagem, várias vias estão congestionadas. Poder-se-ia dizer que foi tudo muito inesperado e por isso não foi possível arranjar soluções a tempo.

Mas isso é mentira. Há mais de um ano o Bloco de Esquerda apresentou uma proposta para que se trabalhasse, com um ano de antecedência, em soluções alternativas para quando as obras começassem. O que fez Moedas? Colocou a proposta na gaveta até há pouco mais de uma semana.

Portanto, toda a gente sabia que os problemas existiriam, mas ninguém quis trabalhar nas soluções alternativas que era preciso assegurar. Isto foi uma escolha política e ela está, agora, a ter consequências gravosas para a vida de quem trabalha ou estuda na cidade.

É importante lembrar que a cidade de Lisboa tem uma ferramenta fulcral para responder a estes desafios: a CARRIS. É absolutamente claro que o investimento nesta empresa central tem que ser mais robusto, para que possa responder às necessidades cada vez mais prementes: mais autocarros e elétricos e mais motoristas.

Não podemos desistir de uma cidade mais verde, com menos carros, mais transporte público e melhor mobilidade. A direita tem o seu programa muito claro: fazer-nos regredir. À esquerda, sabemos bem para onde queremos ir e como.

Triste fado o de uma cidade em que a política de mobilidade é inexistente. Há metas climáticas que estão a ficar para trás, a saúde de quem vive, trabalha e estuda na cidade fica cada vez mais colocada em causa, o impacto das alterações climáticas far-se-á sentir com cada vez mais intensidade se nada for feito entretanto.

Isabel Pires
Sobre o/a autor(a)

Isabel Pires

Dirigente do Bloco de Esquerda. Licenciada em Ciências Políticas e Relações Internacionais e mestranda em Ciências Políticas
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