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Miss Mundo Portugal no mapa

Os planos curriculares exigem demasiado às crianças do 1.º Ciclo mas não cuidam de acautelar a interpretação da sua posição relativa no Mundo.

A substituição do globo terrestre pelas sucessivas versões da PlayStation não explica tudo. Segundo as provas de aferição de História e Geografia do 2.º Ciclo realizadas por cerca de 90.000 alunos, 45% deles não conseguem localizar Portugal continental a sudoeste no continente europeu. Ou seja, crianças com uma média etária de 11 anos deverão saber com muito mais justeza a combinação vitoriosa (*ver nota) que permite reproduzir o imortal drible de Cruyff no FIFA 18 do que a posição relativa dos continentes no mapa Mundo. Quando a matéria se joga com os PES e não com a cabeça, não há concorrência que seja leal. Os planos curriculares exigem demasiado às crianças do 1.º Ciclo mas não cuidam de acautelar a interpretação da sua posição relativa no Mundo. À força de insistirem nas fracções, alguns nunca viram um Mundo por inteiro.

Na esperança de que o software das novas gerações mude, o pacote de medidas propostas pelo PSD para a infância é um muito bom contributo para que, enquanto meio país discute Bruno de Carvalho em "prime time", se debata o que tem de mudar na nossa política de natalidade. Senão, a morte do artista sem provas. Portugal olha para as suas políticas de natalidade e de apoio à infância como para as políticas florestais que antecediam os incêndios de verão: à luz da terra queimada, com pouco ou nada a fazer, como se os incêndios pertencessem ao exclusivo domínio da temperatura e a natalidade estivesse a bambolear-se individualmente na esfera da intimidade. Independentemente da razoabilidade do cheque-cegonha proposto por Rui Rio, um conjunto de propostas que agite depressão demográfica, desertificação do interior, segurança social e educação, rede de creches e infantários e a natureza social do Estado, é algo que deve ser olhado e debatido com seriedade. A bem do nosso abono e da família.

Porque independentemente da taxa de natalidade, tudo o que nasce morre, os concursos de beleza estão mesmo pela hora da última. Sem sabermos o que acontecerá no concurso "Mister Mundo" no que concerne ao hipotético abandono da tanga, o concurso "Miss América" diz adeus ao biquíni. O fim dos desfiles de biquíni e saltos altíssimos é o salto epistemológico que todos esperávamos em sociedade. Cem anos depois, apresentam-nos o fim da beleza exterior em votação de júri num concurso de beleza. A objectivação da superioridade da beleza interior sobre tudo o que mexe ainda pode ser uma das razões pelas quais deixaremos de olhar para o mapa e nos começamos a preocupar desesperadamente com os truques. Sonho então com uma candidata que, à pergunta "Quer a paz no Mundo?", responda: depende.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 6 de junho de 2018

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Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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