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Miseráveis

No dia 1 de Maio comemoram-se os direitos alcançados pelos trabalhadores. A jornada das 8 horas de trabalho. O direito a férias. A justa retribuição. No entanto, a sombra que paira sobre as gentes deste país é negra, densa e cerceia cada vez mais as conquistas de Abril e Maio.

Esta foi uma semana de comemorações em Portugal. Comemorou-se a conquista da liberdade, o derrube do fascismo, a constituição da democracia, o direito à saúde, à habitação, ao pão e à educação. A emancipação das mulheres, a justiça para as minorias, o combate à xenofobia, à homofobia e ao racismo. Esta foi uma semana de comemorações. No dia 1 de Maio comemoram-se os direitos alcançados pelos trabalhadores. A jornada das 8 horas de trabalho. O direito a férias. A justa retribuição.

No entanto, a sombra que paira sobre as gentes deste país é negra, densa e cerceia cada vez mais as conquistas de Abril e Maio. A troika, a austeridade e a gula dos mercados empurram-nos de novo para o obscurantismo do autoritarismo, do conservadorismo, da falta de esperança.

O Governo PSD-CDS conseguiu fazer-nos retroceder em todos os indicadores de bem-estar e evolução social. O trabalho, para muitos, já não chega para para ultrapassar a linha de pobreza. O direito a ferias e ao lazer ficaram relegados a uma sombra do passado. A justa retribuição tornou-se uma miragem. Agora oferecem-se estágios não remunerados ou precariedade ao pacote. A educação volta a ser, cada vez mais, só para alguns. A escola pública foi depauperada da qualidade que Abril lhe deu. Milhares de estudantes desistem do ensino superior. Uns a meio do curso, outros ainda antes de começarem. Não há dinheiro para propinas. A saúde é o que se vê. Serviços encerrados, cirurgias adiadas, medicamentos recusados. Mas o governo diz-nos que estamos no bom caminho. Espera que o ligeiro aumento da taxa de emprego nos faça esquecer as imagens dos milhares de desempregados que se arrastam nas filas para os centros de emprego para de lá saírem, invariavelmente, com as mãos cheias de nada. Espera que ninguém repare nas centenas de sem-abrigo que deambulam pelas cidades. Espera que os indicadores da (suposta) ligeira retoma económica, nos façam esquecer, que 40 anos depois do 25 de Abril regressámos ao modelo da sopa do pobres. Espera que passe ao lado o exílio forçado e o abandono dos sonhos, família, amigos e amores da geração mais qualificada que este país alguma vez teve. Querem-nos fazer crer que o desespero de tantos vale a pena porque os mercados estão mais satisfeitos.

E bem sabemos que do alto do conforto das suas vidas, não lhes será difícil desviar o olhar de quem na rua estende a mão por uma moeda. Bem sabemos como convivem sem remorsos com mais de um milhão de desempregados que não sabem mais o que fazer da sua vida. Bem sabemos como lhes passa ao lado a notícia de jornal sobre mais alguém que desesperado só no suicídio encontrou saída. Bem sabemos como fecham os olhos e o coração a quem depois de uma vida inteira de sacrifícios nada mais é dado do que a caridade para aconchegar o estômago e a solidão. Bem sabemos, que do alto do conforto das suas vidas, os sacrifícios dos outros são apenas danos colaterais.

Mas, por mais que tente, não consigo perceber como podem dormir descansados quando mais de um quarto das crianças do país se encontra em risco de pobreza. Quando desdenham dos que na sociedade menos voz têm, mais indefesos são e a quem mais deviam proteger. Não consigo perceber como podem dizer-nos que os interesses privados e os mercados, as agências de rating e a banca, a Merkel e o FMI, valem mais do que uma criança. Única que fosse.

Só consigo perceber que miseráveis são os que mantêm o sorriso nos lábios quando o roubam, despudoradamente, a tantas crianças.

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda. Professora universitária. Socióloga.
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