No centro do Porto, são já raros os lugares como a Mirita. Uma cervejaria popular, com porta para um pequeno largo a que a cidade deu o nome de Alberto Pimentel, o autor do livro de crónicas “Entre o café e o cognac”. Frente ao Mirita, nos quatro bancos públicos que ali foram postos há décadas, estão velhos e novos, durante o dia, a descansar ou a conversar. À noite, frente à fonte das oliveiras que encerra aquele canto, rumam resistentes de vários feitios, que têm na Mirita um porto seguro e cerveja a 50 cêntimos que podem trazer para a rua, espaço onde se chega livremente e sem consumo obrigatório, espaço de liberdade e de encontro.
Isto era assim até há poucas semanas. Depois de anos em que a Mirita foi sendo sitiada por estabelecimentos de brunchs com ovos benedict e casas de tapas para turistas, chegou a vez do próprio largo ser colonizado pela lei do mercado. O que antes era lugar de todos os cidadãos, passou a ser ocupado por esplanadas exclusivas para clientes. Com a chegada ao local do “Champs na Baixa”, um bistrô-champanharia, a autarquia decidiu arrancar os bancos públicos para concessionar o que restava do largo ao novo negócio dos cocktails.
É um típico processo de privatização e encolhimento de uma das condições cultural e socialmente fundamentais das cidades: um espaço público, acessível a todos, lugar de sociabilidades, de mistura e interpelação pelo estranho. É também um processo de substituição de classe, expulsando quem é mais pobre dos espaços antes comuns. E é uma ideia de cidade, a de Rui Moreira, com o centro transformado numa imensa esplanada, lugar exclusivo para quem tenha no bolso os euros suficientes para desfrutar de um drink de fim de tarde, uma cerveja ao triplo do preço da Mirita, ou um cocktail Cosmopolitan pela módica quantia de 8 euros e meio. O largo, agora, é para quem pode.
A rua do Mirita chama-se Mártires da Liberdade, em memória dos 12 liberais enforcados pelo regime absolutista de D. Miguel, há 194 anos. Talvez não pudessem supor, os liberais de então, que dois séculos volvidos a única liberdade válida para os liberais de hoje seria a do negócio e do consumo, mesmo que em nome dela se suprima a acessibilidade livre ao espaço, se sacrifique a circulação livre, se martirize a possibilidade livre da interação, do contacto inesperado e do uso da cidade por todos. Liberdade de poucos, liberdade de outros.
Artigo publicado em expresso.pt a 17 de maio de 2023