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Mindset milionário e como acabar com ele

A ordem neoliberal vigente legitima-se vendendo um sonho. Um paraíso de liberdade plena, de luxo e de bem-estar material. Esta lógica do cada um por si vai-nos sendo forçada de várias formas, fazendo-se passar por algo desejável e atrativo, mascarando a sua verdadeira essência.

"A política emancipatória precisa sempre destruir a aparência de uma “ordem natural”: deve revelar que o que nos é apresentado como necessário e inevitável é, na verdade, mera contingência, e deve fazer com que o que antes parecia impossível pareça alcançável." - Mark Fischer

A ordem neoliberal vigente legitima-se vendendo um sonho. Um paraíso de liberdade plena, de luxo e de bem-estar material. Se estás, como a esmagadora maioria da população trabalhadora, numa situação longe desta vida ideal, é culpa tua que fizeste algo de errado. Mas nada temas: para chegares lá só tens de mudar de mindset e aprender a jogar o jogo.

Esta lógica do cada um por si vai-nos sendo forçada de várias formas, fazendo-se passar por algo desejável e atrativo, mascarando a sua verdadeira essência

Esta lógica do cada um por si vai-nos sendo forçada de várias formas, fazendo-se passar por algo desejável e atrativo, mascarando a sua verdadeira essência. É a competição mascarada de meritocracia, quando na escola se descura a educação para a cidadania e se coloca o foco nos exames, pela conquista de um lugar numa universidade que se gaba por médias de entrada altíssimas (como se fosse indício de algo de bom), de preferência num curso de alta empregabilidade. É a ganância e a ostentação mascarados de trabalho e de sucesso, quando influencers bombardeiam jovens nas redes sociais vendendo-lhes um lifestyle de aparências e de opulência e a ideia de tudo isso é alcançável desde que tenham um "mindset milionário", entrando nos seus esquemas de pirâmide de investimentos em bitcoin e em mercados forex, e aprendendo estratégias de "marketing pessoal". É a hipocrisia do privilégio e a alienação mascarada de oportunidade, quando se prega o empreendedorismo e a criação do próprio emprego como soluções milagrosas para a precariedade. É o egoísmo mascarado de liberdade, presente nos discursos demagógicos contra os impostos sem o reconhecimento da importância dos serviços públicos na sociedade e na vida das pessoas. É o isolamento social mascarado de desenvolvimento pessoal, quando se transmite a ideia de que para ter sucesso é preciso ser competitivo e colocar a carreira como prioridade, em detrimento de qualquer noção de cooperação, comunidade ou bem comum. Em suma, é o hiperindividualismo.

A concepção de indivíduo como naturalmente competitivo e a sua motivação como principal motor dos fenómenos sociais, bem como a abstração de estruturas e processos coletivos, são centrais à crença no capitalismo. Mas há pontos de rutura deste sistema, que colocam a nu a suas inconsistências e que permitem questionar a sua inevitabilidade. Enumerarei alguns exemplos.

As sociedades capitalistas vivem uma crise generalizada de saúde mental, quase que como um preço a pagar para que o sistema continue a funcionar

Um deles é a saúde mental. As sociedades capitalistas vivem uma crise generalizada de saúde mental, quase que como um preço a pagar para que o sistema continue a funcionar. Esta crise tem se tornado mais visível com os impactos da pandemia e o prolongamento do teletrabalho, mas já vem de antes. Como mostra um estudo de 2013 da OMS, cerca de 43% dos portugueses sofreram ou sofrerão de alguma "perturbação mental" em algum momento das suas vidas, com a ansiedade e a depressão à cabeça1.

Outro exemplo é a pobreza, que está intimamente ligada às questões da saúde mental. Um quinto da população portuguesa é pobre, sendo que destes apenas 13% está em situação de desemprego2. Ter um emprego já não é suficiente para sair de situação de pobreza.

Finalmente, é necessário falar do clima. Será escusado apresentar dados sobre a magnitude da crise climática que coloca em risco a possibilidade de vida no planeta. Esta catástrofe previsível será talvez a ilustração mais óbvia de um capitalismo disfuncional que caminha para o abismo, baseando-se no pressuposto fantástico de que os recursos do planeta são infinitos e que servem para alimentar uma economia que tem de estar em constante expansão.

É desmontando a propaganda da culpabilização individual que podemos romper as bolhas de alienação, e assim abrir portas para a construção de redes de cooperação e de mobilização social

As respostas que o sistema fornece para explicar e resolver crises causadas pela exploração e pelo individualismo não são mais do que uma insistência desesperada no próprio individualismo. Concebem-se os problemas de saúde mental como desequilíbrios químicos no cérebro dos indivíduos que só os próprios (com ajuda de medicação) podem resolver3. A pobreza é explicada pela preguiça, má atitude e erros de percurso, propagando-se mitos de superação individual e ignorando-se condições de partida. No caso do clima, criam-se novos mercados baseados num estilo de vida ecológico que só alguns conseguem pagar, e atira-se moralisticamente a culpa da crise para cima do cidadão comum. Em caso algum se questionam causas políticas, económicas ou sociais. Repensar o sistema é tabu.

É através da identificação destes e outros pontos de rotura, e demonstrando as causas estruturais das crises que vivemos que devemos disputar a "naturalidade" do capitalismo e do individualismo. É desmontando a propaganda da culpabilização individual que podemos romper as bolhas de alienação, e assim abrir portas para a construção de redes de cooperação e de mobilização social, numa invenção permanente de modos de vida alternativos.

Notas:

Sobre o/a autor(a)

Engenheiro Informático. Mestrando em Ciência Política. Bolseiro de investigação
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