Está aqui

Militares q.b.

Todos sabemos como os militares são bons em matérias de logística e de organização. Da preparação para a guerra, surgindo a oportunidade, introduzem esses ensinamentos no quotidiano. Durante um tempo, pode ser bom mas q.b.

A vacinação tem corrido bastante bem e o mérito recai sobre o Vice-Almirante Gouveia e Melo, só mesmo alguém insano se atreveria a negar. O Sr. Vice-Almirante apresenta-se fardado, não estamos a brincar, considerou esta uma batalha decisiva. A razão está com ele, reconhecemos todos que ou vencemos esta batalha ou soçobramos. Uma batalha em várias frentes: no Norte, nos vários Litorais, no Interior. Podíamos denominar estas frentes com nomes mais adequados e desenharíamos um mapa da grande guerra contra o Covid19. Mas o Sr. Vice-Almirante não está presente para os pormenores, não é suposto estar mas este é um país órfão, mal organizado, com muitos funcionários e técnicos subservientes, paupérrima iniciativa e muito tementes. O Sr. Vice-Almirante dá uma instrução e até que essa directiva chegue cá abaixo e seja cumprida, no espírito e na forma, passa uma eternidade. Esta cadeia hierárquica está mal oleada, não foi ensinada a pensar de forma autónoma mas convergente e complementar. Quando as pessoas pensam, introduzem qualquer aspecto criativo que borra tudo. Foi o caso no Porto com a iniciativa da Directora Executiva do Agrupamento de Centros de Saúde do Porto Oriental. A directiva sobre a “casa aberta” era bem clara, destinava-se a pessoas acima dos 50 anos ou para os que, cumpridas oito semanas sobre a primeira dose da AstraZeneca, estavam em condições de avançar para a segunda dose. A sra. Directora Executiva achou que ajudava avançando para outros grupos etários. Teria muitas doses da AstraZeneca, asneira de qualquer forma. O Vice-Almirante atalhou a direito: um acto de indisciplina, pune-se.

Há umas duas semanas, o Sr. Vice-Almirante foi a Monte Abraão (Queluz), ia por lá o diabo, ele apresentou-se, pôs o pessoal em sentido, identificou e corrigiu os problemas. Nunca mais se ouviu nada, deve ter restabelecido a ordem porque não é tempo agora “para colinho”.

Agora foi criado um novo centro de vacinação da responsabilidade exclusiva de militares, ali à Cidade Universitária de Lisboa, para vacinar pessoas que, por um motivo ou outro, foram ficando para trás. Bem lembrado, palminhas.

Conviria que o Sr. Vice-Almirante tivesse presente que as directivas dele podem causar alguma confusão quando chega o momento da execução. Por exemplo, eu apresentei-me no meu Centro de Vacinação para a segunda dose da AstraZeneca mal ouvi da “casa aberta”, depois das 18 horas. Rica confusão, tanta autoridade, tanta farda (Bombeiros, Protecção Civil, funcionários administrativos da Junta de Freguesia, enfermeiras, responsável pela execução!) e um montinho de candidatos à vacina. Olha, não havia! Só tinham quatro, os candidatos seriam talvez uns quinze. Começou o diz tu, direi eu, chegaste depois, não já cá estava… Por mim, voluntariei-me logo para o dia seguinte e afastei-me não sem ter ouvido o comentário “O Sr. Vice-Almirante decidiu que vacinávamos mas não assegurou as vacinas…” Verdade? Má vontade? Incapacidade de organização? Um bocadinho de fel?

Não culpo o Sr. Vice-Almirante mas este microcosmos dá inteira razão aos avisos de Constantino Saklarides sobre a necessidade absoluta de introduzir o planeamento. Uma ideia estulta para muitos de nós que achamos que é preciso fazer, fazer, fazer. Enquanto Constantino Saklarides no último Expresso da Meia-Noite explicava com clareza como se progride, a jornalista ansiosa interrompia-o para obter respostas com as soluções desejadas. Grandes moinhos de vento. Mal se refere a indispensabilidade de parar para pensar e planear, esta paragem é logo interpretada como uma perda de tempo da qual não recuperaremos. Engano fatal! Esta pausa tem de ser introduzida na nossa prática, agora na vacinação e na saúde mais tarde em tudo o resto. Um tempo de reflexão, de ponderação e de organização que pode e deve ser assumida pelos civis porque de militares, já basta assim assim.

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
(...)