Meu querido Verão quente

porMiguel Guedes

22 de julho 2016 - 15:28
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A última tentativa de golpe de Estado na Turquia foi servida como a febre de sexta-feira à noite com mais sangue derramado do que em "Pulp Ficton" ou qualquer outro filme que Travolta possa protagonizar ou Tarantino dirigir.

Sem certezas sobre quem tramou um golpe de Estado amador à medida do fortalecimento do presidente turco Edorgan, a noite começou em deposição do poder e acordou com um presidente a chegar de férias para gozar "uma bênção de Deus" como entreposto para uma operação de limpeza das Forças Armadas "que devem ser totalmente puras". Entretanto, passou à purga e já foram presos, depostos ou demitidos cerca de 21.000 professores, 9.000 oficiais de Polícia, 6.000 militares, 3.000 juízes e 1.577 reitores. Apelou à resistência e revolta através das mesmas redes sociais que antes tentou proibir para regressar como um herói que admite a reposição da pena de morte e da punição exemplar. Filho de Istambul e enteado de Ancara, cidades que - respectivamente - sempre privilegiou e desfavoreceu. Em ambas cortou pela metade. Agora instala-se a melancolia, o "hozun" dos dias seguintes. Tudo piorou. A perda de fé na verdade que a televisão transmite acompanha aqueles que há muito acreditam que, como escrevia Gil Scott-Heron, "a revolução não será televisionada".

Tudo é relativo num Mundo onde o lucro da Goldman Sachs aumentou 74% no segundo trimestre do ano sem que Durão Barroso tivesse sequer aquecido a cadeira. Tudo parece relativo e normal. Até questões comezinhas como a dimensão do plágio. Michele Obama que o diga, ao assistir de cadeirão às frases em realidade paralela de Melania Trump sobre a vida e os "fragmentos do seu próprio pensamento". Das sinapses cortadas de Melania ninguém acredita que possa sair discurso de Convenção. Mas verdade seja dita: também não temos ouvido o marido de Hillary nos últimos tempos.

No início da década de 90, os "The Disposable Heroes of Hiphoprisy" (TDHOH) cantavam "Television, the Drug of the Nation". Imensas dúvidas, confesso, quando alguma literatura ideológica transviada pode ser pior. Não fosse a tragédia de Nice o reflexo do absurdo dos tempos e estaríamos deliciados a ler Arnaldo Matos, fundador e líder do PCTP-MRPP, a defender como um "acto legítimo de guerra" o ataque que vitimou mais de 80 pessoas inocentes. Infelizmente não dá para ler sem contorcer de dor. Mas há algo que vejo e ouço como verdade cristalina na canção dos norte-americanos TDHOH: "TV is the reason why less than ten percent of our Nation reads books daily/ Why most people think Central America means Kansas". "Silly season", em bom português.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” em 20 de julho de 2016

Miguel Guedes
Sobre o/a autor(a)

Miguel Guedes

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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