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Meu querido mês de Agosto

Alguns chefes de Estado ocupam os outrora tempos mortos com propostas impensáveis e isso não tornou os nossos dias mais divertidos.

Fazer uma revista política do mês de Agosto é, nos tempos que correm, um exercício particular. A nova configuração política mundial e o retrocesso que se faz sentir no mundo actual mostram-nos que a silly season não precisou de muito alimento externo. Alguns chefes de Estado ocupam os outrora tempos mortos com propostas impensáveis e isso não tornou os nossos dias mais divertidos. Pelo contrário.

Achei, ingenuamente, que ver Bolsonaro fazer um apelo nacional para obter mais seguidores no instagram para a primeira dama brasileira era o limite, mas Bolsonaro consegue sempre ultrapassar-se a si mesmo e deu-nos um mês cheio de pérolas com consequências dramáticas nas vidas concretas das pessoas. Donald Trump viu na Gronelândia “um grande negócio imobiliário” e anunciou que queria comprar o território. Depois de nos “descansar” com uma fotomontagem publicada no twitter, garantindo que não iria construir uma Trump Tower, cancelou a viagem oficial à Dinamarca por “descobrir” que, afinal, a Gronelândia não estava à venda. A primeira ministra, Mette Frederiksen, respondeu-lhe o óbvio - que a Gronelândia não está à venda - e Trump amuou. Achando que tudo isto era bom material para brincar, a juventude da Nova Aliança Flamenga, o partido belga NvA, resolveu oferecer a Trump a venda da Valónia, a parte francófona do país, por 1 euro… amuaram os belgas, e com razão. Aqui mais perto, Boris Johnson tentou um acordo com a Irlanda, pedindo que a República se alinhasse temporariamente com o Reino Unido e tivesse uma dispensa especial de Bruxelas para divergir das regras europeias. Podemos dizer que era, no mínimo, uma solução criativa: evitava o polémico backstop que tantas dores de cabeça tem dado no processo do Brexit e pedia aos irlandeses que “ignorassem” mais ou menos um século de independência do Reino Unido, mas só temporariamente. Não gostaram os irlandeses e, como não funcionou, Boris Johnson acabou por pedir a suspensão dos trabalhos parlamentares britânicos por mais algumas semanas para não ter muito com quem discutir até se resolver o problema Brexit.

Não há muitos anos, estas notícias não teriam cabimento ou não seriam levadas a sério. Seriam, quando muito, matéria de publicações sarcásticas ou facilmente desmontadas como fake news. O problema que enfrentamos é que a realidade ultrapassa perigosamente a ficção e o risco de normalização do ridículo é grande. Uma discussão séria da democracia e dos seus pilares não pode, nem deve, secundarizar este problema. Ele é real e mina a cada dia as instituições e as sociedades. Desconsiderar também não funciona. Falamos de representantes eleitos democraticamente e de sociedades que convivem bem com este “novo normal”. Agosto já não é como era. Nunca pensei dizer isto, mas talvez o ambiente antes criado na silly season possa ser um indicador de salubridade democrática.

Artigo publicado no “Diário de Notícias” a 31 de agosto de 2019

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputada, dirigente do Bloco de Esquerda, socióloga.
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