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Metam-se na vossa morte

A estratégia para impedir a despenalização da eutanásia é simples: criar medo, pânico, terror, decretar o apocalipse vindouro tão certo como uma vaca voar, com o intuito de convocar a dúvida.

A pílula anticonceptiva chega a Portugal no final dos anos 60. Por essa altura forma-se a Associação para o Planeamento Familiar (APF) e as reações por parte da ditadura são as piores: a APF é advertida pelo Cardeal Patriarca para não promover o uso da pílula e as suas contas bancárias são bloqueadas pelo Governo. Para os detratores da pílula na época os argumentos eram de dois domínios: a pílula promovia a promiscuidade entre as mulheres e os seus efeitos secundários eram terríveis, deformavam o corpo da mulher, entre outras manigâncias inventadas na altura. A família ia ser destruída e as mulheres iriam ficar doentes e inférteis. Hoje a pílula é utilizada, de forma segura e eficaz, por milhões de mulheres Portuguesas, permitindo-lhes autonomia sobre a sua vida reprodutiva. Não se destruíram famílias, nem aconteceu nenhuma outra catástrofe apocalíptica.

No ano 2000 Portugal descriminalizou o consumo de drogas. Na altura, Paulo Portas que se opôs violentamente a esta medida disse: "haverá aviões cheios de estudantes, dirigindo-se ao Algarve, para fumar marijuana e coisas piores, sabendo que não os colocaremos na cadeia. Prometemos sol, praias e qualquer droga de que se goste". A descriminalização das drogas em Portugal foi pioneira, é hoje apontada como uma das medidas mais eficazes para a diminuição dos consumos e problemas associados e um exemplo a seguir em todo o Mundo. O Observatório Europeu da Droga e da Toxicodependência garantia, anos depois, que “verificou-se uma descida do consumo de substâncias ilícitas [estupefacientes como canábis, cocaína, heroína, LSD] nos jovens”. Atualmente em Portugal morrem 3 pessoas em cada milhão por overdose por ano – muito abaixo da média Europeia que se situa nos 17,3. Não chegaram os aviões cheios de estudantes, não nos tornamos nenhum paraíso do narcotráfico, muito pelo contrário.

Em 2007, na noite de fecho da campanha do referendo pela despenalização do aborto, Isabel Galriça Neto, citando números de abortos noutros países Europeus, declarava firme que os abortos iriam aumentar com a despenalização. Os movimentos do “Não” proclamavam na altura que o aborto iria ser utilizado levianamente pelas mulheres como contraceptivo. Passaram 11 anos desde a despenalização e Portugal é o país Europeu com menor número de interrupções de gravidez por cada mil nascimentos vivos e fazem-se hoje menos 15% de abortos do que há 10 anos. O aborto diminuiu com a despenalização e as taxas de reincidência são muito baixas. As mulheres não o estão a utilizar levianamente.

Hoje utiliza-se a mesma estratégia para impedir a despenalização da eutanásia. Ela é simples: criar medo, pânico, terror, decretar o apocalipse vindouro tão certo como uma vaca voar, com o intuito de convocar a dúvida. E a dúvida que o medo gera é o melhor dos instrumentos para quem quer deixar tudo na mesma. O mesmo medo que usaram ditadores no passado para imporem regimes totalitários e violentos.

Não surpreende esta estratégia vinda dos mais extremistas dos movimentos ditos “pró-vida”. Mas surpreende e muito, que hajam tantos deputados que sucumbem a ela. Mesmo depois de tanta realidade e tantos factos do passado que a desmentem, que a contradizem. A refratariedade à realidade e à memória é assustadora em 2018. E é sobretudo irresponsável para com quem sofre e procura soluções.

Senhores deputados, metam-se na vossa morte. E deixem-me escolher em paz. Não é isso que é uma democracia?

Sobre o/a autor(a)

Médico neurologista, ativista pela legalização da cannabis e da morte assistida
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