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A mensagem não sendo certeira, fica com o mensageiro

Um artigo recentemente publicado proporciona dados que, esmiuçados, ajudam a posicionar o grande grupo social de seniores e reformados e a projectar estratégias para organizar a intervenção social.

Um artigo recentemente publicado (Marina Costa Lobo, Revista Expresso, 26 Jan 2019) proporciona dados que, esmiuçados, ajudam a posicionar o grande grupo social de seniores e reformados e, portanto, a projectar estratégias para organizar a intervenção social. A política desconhece o copy paste mas vale a pena seguir as escolhas de 2015. É o que temos, com ele nos aviamos.

No texto em causa, e recorrendo aos dados fornecidos pelo inquérito que sustentou o artigo, ao explicar os resultados das eleições legislativas de 2015, referem-se os “grupos [sociais] mais vulneráveis” no seio dos quais se encontram indícios mais conservadores (sobre os imigrantes, sobre as crenças religiosas, sobre o modo de vida dos portugueses, sobre a integração europeia) do que na generalidade da população portuguesa. Diz a autora, citando sucessivos Eurobarómetros, que “os grupos sociais mais desfavorecidos, juntamente com os mais idosos e os menos escolarizados, foram sempre, significativamente, mais cépticos em relação à UE”. Lançados que estamos nas eleições para o Parlamento Europeu, esta conclusão dos Eurobarómetros deveria levar-nos a um primeiro momento de reflexão. O que é que podemos espremer da Europa que inverta esta desconfiança e resulte numa maior afluência de eleitores “mais vulneráveis” nas urnas de Maio?

Recorrendo às mesmas fontes, também se fica a saber, através da MCL, que são estes cidadãos “mais vulneráveis” os que mais desconfiam dos políticos e “estão insatisfeitos com a democracia em Portugal”. Serão estes eleitores, e repito MCL, o campo perfeito para o desabrochar de populismos de direita. Se este fantasma nos atormenta, então, quais são os factos, as notícias, os projectos que deveremos utilizar e propor para conversar com os “mais vulneráveis” quando vamos ao seu encontro? Sem alterar os nossos princípios, como devemos combinar e dosear a nossa mensagem? O que nos preocupa, e com bondade discutimos, será mesmo aquilo que estes “mais vulneráveis” esperam? Um bom segundo momento de reflexão.

Chegado o dia da verdade, como vamos de abstenção? Surpreendentemente, e reproduzo a ideia não as palavras, os reformados, os que mais baixos rendimentos auferem ou ainda também os que constituem a classe média-baixa, recusam a abstenção mais que a média dos portugueses e preferem os partidos de esquerda. Os “mais vulneráveis” optam maioritariamente pelo PCP, embora o Bloco de Esquerda tenha subido neste indicador; quem leva mais votos dos reformados (classe média) é o PS. Os partidos da direita não convocam nem os “mais vulneráveis”, nem os reformados. É reconfortante saber isto, porque reconhecem por longa e antiga experiência que daquele lado ninguém os atende e porque fazendo esta opção, os “mais vulneráveis” acompanhados dos reformados não abrem brechas ao populismo de direita. Esse é o eleitorado ao encontro do qual temos de ir, “mais vulneráveis”, classe média-baixa e classe média. A insatisfação não se limita às baixas pensões mas que seja. Temos propostas que respondam às expectativas destes grupos sociais? Temos mas precisamos de as trabalhar. Se um salário mínimo é indigno que palavras se hão-de usar para qualificar aquelas pensões que não atingem sequer metade do SMN? Ele há pactos que não devemos subscrever em nome da nossa própria identidade. E esta é uma matéria a exigir reformulação de alto a baixo. De um lado para o outro, para isolar a direita e uma esquerda dia-sim-dia-não. Esta é uma terceira reflexão que nos reposicionará sem peias no confronto social, na luta contra a pobreza. Pensões que reflictam as carreiras contributivas; pensões que não recorram a subsídios sociais; pensões que permitam viver com dignidade. Uma mensagem clara, um objectivo bem definido. Para todos e para todas.

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária reformada da função pública. Candidata do Bloco de Esquerda nas eleições legislativas de 2015, pelo círculo eleitoral de Lisboa. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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