Mariana sumud

porBruna Oliveira Lemos

07 de outubro 2025 - 17:04
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A Sumud Flotilla, que significa flotilha da resiliência, tinha um propósito claro: mobilizar consciências e trazer o foco do mundo para o massacre contínuo em Gaza. Todos sabiam que poderiam ser intercetados, mas também sabiam o poder transformador que a sua ação poderia gerar. E gerou. E continuará a gerar.

A Mariana regressou, mas não chegou sozinha e fez questão de o mostrar.

Recusou-se a falar com os jornalistas enquanto não tinha a seu lado os bravos e corajosos Miguel, Diogo e Sofia. Quis deixar claro que, da mesma forma que não partira sozinha, também não regressava sozinha. Sabia que seria o centro de todas as atenções, o alvo de todas as câmaras, de todos os microfones, de todas as questões. Só iniciou o discurso quando Sofia Aparício, no meio de apoiantes e forças policiais, conseguiu finalmente juntar-se a eles.

A Mariana regressou. E, quando muitos esperavam vê-la fragilizada, marcada pelo medo e pelo horror que enfrentaram, surgiu mais forte, mais lúcida, com a mesma clareza de pensamento e a coerência de discurso que sempre lhe conhecemos. E é precisamente nessa força, nessa serenidade combativa, que as críticas dos mais pequenos, não em número, mas em tudo o resto, encontram o seu alvo.

Larguem as mentiras e procurem a razão, quanto mais não seja dentro de vós.

A Mariana não é apoiante do Hamas, por muito que alguns insistam em repetir essa mentira vergonhosa. A Mariana não abandonou o Bloco de Esquerda, nem encenou uma jogada eleitoral. As flotilhas não foram planeadas em função de calendários políticos ou campanhas eleitorais. E, convenhamos, se pensarmos um pouco, perceberemos que as eleições autárquicas têm pouco peso para quem arriscou a vida no Mediterrâneo. Quem se atira ao mar, nas mãos de um exército que poderia tê-los feito desaparecer. Ainda que fosse o desejo de muitos, cá estão eles.

A Sumud Flotilla, que significa flotilha da resiliência, tinha um propósito claro: mobilizar consciências e trazer o foco do mundo para o massacre contínuo em Gaza. Desde o início, todos sabiam que poderiam ser intercetados, mas também sabiam o poder transformador que a sua ação poderia gerar. E gerou. E continuará a gerar.

Há um povo que paga, todos os dias, por crimes que não cometeu. Um povo sitiado, ferido, empurrado para a miséria e para a fome, enquanto o mundo desvia o olhar. Apoiar a Palestina não é tomar partido por uma fação, é escolher o lado da humanidade. E foi esse o lado que a Mariana e os seus companheiros escolheram, sabendo o preço que isso podia ter.

Sim, há outros lugares no mundo onde há conflitos e tragédias. Mas é precisamente por isso que precisamos de mais pessoas como a Mariana, o Miguel, o Diogo e a Sofia. Pessoas que não se calam, que não se resignam, que não viram a cara à injustiça. Que vão, que enfrentam, que se atiram ao mundo cruel, seja onde for.

Apontar apenas as crises, enumerar tragédias e ficar de braços cruzados não muda nada. Criticar ou desejar a morte a quem se levanta contra o horror é uma das maiores crueldades a que já assistimos. Chamar de “circo” a um movimento humanitário é de uma ignorância fria, cruel e calculista.

Que se discorde da visão política de Mariana Mortágua, está tudo bem. A política é plural, e ainda bem que assim é. Não é preciso votar no Bloco de Esquerda para reconhecer a sua coragem. Da mesma forma que não é preciso ver todas as novelas da Sofia Aparício para admirar a sua atitude humanitária. Respeitar quem, conhecendo ou não todos os contornos do conflito, escolhe agir, é o mínimo e mais justo a fazer.

Quem critica esse gesto de forma baixa, quem subscreve petições para que Israel impeça o regresso da Mariana a Portugal, não defende a justiça. Defende o ódio. E o ódio é sempre vil.

O povo português foi sempre um bom povo. Porquê, então, tanto ódio? Tanto disparate? Somos o povo dos versos dos Lusíadas, corajoso, determinado, sem medo. Mas somos também o povo que se desinteressa pela base que sustenta esses mesmos versos. Pela educação, pela informação, pela literatura, pela arte, pela poesia. Os mesmos elogios e advertências que Camões nos deixou no século XVI continuam a servir-nos, tristemente, no século XXI. Ouçamos Camões e Pessoa que tanto apelou ao seu Portugal espiritual. “É hora!”.

A Mariana voltou. E trouxe consigo o que mais incomoda o ódio e a mentira: a força da coerência, a coragem da ação e a humanidade que não se cala diante da barbárie. Que um dia lhes escrevam uns versos epopeicos. Porque alguns gestos, como o da Mariana e dos seus companheiros, merecem ser lembrados como se lembram os heróis.

Bruna Oliveira Lemos
Sobre o/a autor(a)

Bruna Oliveira Lemos

Natural de Guimarães. Professora de português.
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