Mariana Mortágua e o reflexo de um país patriarcal

porBruna Oliveira Lemos

31 de maio 2025 - 16:45
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Porque é que uma mulher assertiva incomoda tanto? Mariana Mortágua é só o reflexo de algo maior. Enquanto o ódio às mulheres for tão automático e aceite continuaremos a precisar de mulheres como ela.

Vivemos numa era em que o discurso de ódio se disfarça de “opinião” e onde a mulher que diz “não”, que se impõe, que recusa sorrir para agradar, é rotulada de arrogante, antipática ou perigosa. Esta tendência, antiga, ganhou novo fôlego com as redes sociais, onde figuras como Andrew Tate, Elon Musk e alguns influencers portugueses promovem uma masculinidade tóxica, alimentando o ódio contra tudo o que simbolize emancipação feminina.

É neste cenário que Mariana Mortágua surge como alvo óbvio: mulher, lésbica, de esquerda, assertiva, preparada, segura. Tudo nela incomoda uma sociedade que ainda não fez o luto da sua herança patriarcal. O ódio que recebe não é apenas político — é estrutural e simbólico.

Discordar das suas ideias é legítimo. Mas a violência dos ataques, muitas vezes antes sequer de abrir a boca, revela um desconforto com a mulher que não pede licença para existir no espaço público.

Também nós, mulheres, fomos ensinadas a desconfiar de mulheres. Desde cedo aprendemos a competir: quem é mais bonita, simpática, discreta? Quando uma mulher foge ao guião — não é doce, nem sorridente, nem "feminina" — torna-se um alvo.

Falo por mim: só nos meus vinte e poucos anos percebi o desconforto irracional que sentia perante mulheres mais seguras. Não era opinião, era desconfiança plantada. Uma semente que ainda vejo germinar em muitas críticas à deputada.

Ela não adoça o discurso. Não pede desculpa por saber. Não suaviza para ser aceite. E isso incomoda. Quando um homem o faz é “experiente”. Quando é ela é “arrogante”. Os “bigodes” da política podem ser frios e duros — são figuras de Estado. Ela é “agressiva”. Porquê? Porque ainda não sabemos lidar com mulheres que falam como os homens sempre falaram: com firmeza.

Mortágua incomoda porque tem voz. Porque enfrenta privilégios. Porque representa uma geração de mulheres que não pedem desculpa por existir. E isso desperta desconforto — em muitos homens habituados a ver o poder num só lado, e em muitas mulheres que, sem o saberem, foram ensinadas a temer quem sai do molde.

Não escrevo este texto como defesa cega. Não é preciso. As suas ideias sustentam-se. Escrevo porque a vejo como reflexo — de mim, de muitas de nós, de uma luta ainda por cumprir.

Ser mulher é, muitas vezes, vestir uma armadura: para não sermos interrompidas, diminuídas, desvalorizadas. Também eu sou julgada por falar com firmeza. Dizem ter medo de mim à primeira impressão. Depois conhecem-me. Mas o preconceito chega antes de mim.

A Mariana carrega esse fardo — à escala nacional. E não, não é arrogância. É protecção. É sobrevivência. Por isso, deve reflectir-se:

Se és homem — pensa por que motivo te incomoda uma mulher que fala sem medo. Se és mulher — pensa se já julgaste outra mulher só por ser frontal, determinada ou segura. Se não gostas da Mariana — pergunta-te se é pelas ideias, ou pela forma como as diz.

E se fosse um homem a dizê-las — dirias o mesmo?

A luta da Mariana Mortágua é maior do que ela. É por um país onde o espaço público pertença a todos — sem excepção de género, tom de voz ou orientação. Enquanto o ódio às mulheres fortes for tão automático e aceite… continuaremos a precisar de mulheres como ela.

Artigo publicado em Público P3 a 27 de maio de 2025

Bruna Oliveira Lemos
Sobre o/a autor(a)

Bruna Oliveira Lemos

Natural de Guimarães. Professora de português.
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