A primavera das marchas está a chegar e com ela já temos mais de vinte confirmadas de norte a sul do país, do litoral ao interior. Marchas que nascem como um movimento contínuo em transformação e transformador, que cresce todos os dias quer a nível de pessoas como geográfico. Contudo, a verdadeira essência das marchas acontece quando as mesmas são politizadas, com reivindicações fortes e, sobretudo, revolucionárias. Assim sendo, o maior significado que transmitem é o de marcarem a agenda política com debates importantes da população LGBTQI+. E é nesta onda frenética de festa e de cor que se faz a luta e se podem desconfinar corpos considerados dissidentes no espaço público.
Porém, existem vários desafios para quem faz parte da construção e organização deste movimento, sendo um deles o combate à mercantilização do próprio. Vivemos numa época em que a sociedade é cada vez mais polarizada e feita de relações complexas. E é a partir daqui que questões sociais começam a chamar a atenção de grandes empresas. Temas como a luta ambiental, igualdade de género e orientação sexual acabam por fazer parte de uma propaganda disfarçada de solidariedade do mercado. Contudo, no que toca a todas estas lutas não basta parecer, mas sim ser-se.
No panorama internacional das grandes marchas podemos observar que muitas foram esvaziadas do seu conteúdo político no momento em que as grandes empresas se aproveitaram destes espaços para fazerem deles momentos de espetáculo apolítico onde a visibilidade de quem participa depende da regra: quem consegue pagar mais? A população LGBTQI+ deixa de aparecer como protagonista político da sua própria história para passar a ser espetadora de um evento patrocinado pelo grande capital. Estas marcas e este conceito de marchas não nos representam enquanto ativistas anticapitalistas, uma vez que o mercado nunca é democrático e reforça dinâmicas discriminatórias de classe e de poder. Para fazer frente a esta onda neoliberal que privilegia o mercado e o hiperindividualismo é necessária uma política anticapitalista LGBTQI+, algo que tem sido feito em Portugal ao não se permitir a participação de empresas nas marchas.
Para um movimento em marcha que represente todas as pessoas é imperativo que se fale de saúde, educação inclusiva, de habitação, do combate à precariedade, que fale do dia a dia da população LGBTQI+, através das vozes das mesmas que todos os dias travam as mais diversas lutas. Temos consciência de que vivendo num mundo capitalista seja normal que exista mercado LGBTQI+, porém é importante que em coletivo não deixemos que a nossas marchas, estes espaços transformadores, serem colonizados pelo mesmo. Que ao fazermos parte da construção deste movimento possamos pensar um mundo novo, um mundo tal como o desejamos, pois apenas assim a marcha é linda, apenas assim a marcha é revolucionária.