Onze dias após o início dos catastróficos incêndios que devastaram a ilha da Madeira, os madeirenses podem finalmente respirar de alívio, ainda que com cautela, pois há sempre o risco de reacendimentos inesperados. Após este momento negro na história da Madeira, é necessário fazer um balanço abrangente de várias temáticas.
Do ponto de vista ambiental, a área ardida ascende a vários milhares de hectares, incluindo zonas pertencentes à rede Natura. A floresta laurissilva, embora afetada em menor escala, também sofreu danos, sendo que os especialistas estimam que a recuperação desta área levará décadas. Além disso, as chamas atingiram áreas críticas para a freira-da-Madeira, uma espécie de ave endémica da ilha, o que aumenta a possibilidade de a espécie entrar em perigo de extinção. Outra consequência grave é a instabilidade dos solos, que estão agora em risco de desabamento, especialmente se ocorrerem chuvas e ventos fortes. Os especialistas alertam que estas condições poderão provocar derrocadas e deslizamentos de terra, potencialmente mais perigosos e destrutivos do que os de 2010, que causaram várias mortes e perdas materiais significativas.
Naturalmente, estes incêndios terão repercussões no turismo, o principal setor da economia da Madeira. Os turistas que procuram as paisagens verdejantes da ilha podem agora encontrar um cenário mais cinzento e desolador, o que poderá afetar a atratividade da Madeira como destino turístico. O impacto ambiental não se reflete apenas na destruição de flora e fauna, mas também na imagem da ilha, tão dependente da sua beleza natural.
Do ponto de vista político, estes incêndios expuseram novamente a falta de preparação do governo regional da Madeira para enfrentar catástrofes desta dimensão. Embora Miguel Albuquerque afirme que ninguém lhe "pode dar lições", dado que, ao longo da sua carreira, já enfrentou mais de 20 catástrofes, os factos demonstram que pouco foi aprendido. Para além da falta de preparação da Região Autónoma, o Presidente do Governo Regional revelou uma enorme arrogância, irresponsabilidade e prepotência. Enquanto as chamas devastavam a floresta do Curral das Freiras e a população se sentia cada vez mais encurralada, o secretário com a tutela da Proteção Civil, Pedro Ramos, afirmava que havia recusado a ajuda da República, justificando que a situação estava controlada, apesar de a realidade apontar o contrário. Chegou mesmo a afirmar que apenas 10% dos bombeiros madeirenses estavam alocados ao combate a esta emergência.
Assistimos também a uma completa falta de respeito para com os madeirenses, pois, no momento em que muitos se angustiavam com as chamas que ameaçavam as suas casas, terrenos e áreas florestais, o Presidente do Governo Regional estava de férias na ilha do Porto Santo. Apenas após a grande polémica gerada nos meios de comunicação e na opinião pública é que decidiu regressar à Madeira para acompanhar a situação. Contudo, para espanto e revolta de muitos, acabou por regressar ao Porto Santo, onde foi fotografado a apanhar banhos de sol nas areias douradas daquela ilha. Este comportamento revela uma total falta de noção e de respeito por quem deveria ser um dos responsáveis máximos pela gestão desta catástrofe.
Para piorar ainda mais a situação, Miguel Albuquerque desmentiu o seu próprio secretário, afirmando que não era verdade que a ajuda da República tivesse sido recusada. Após muita polémica e contestação popular, a ajuda do continente chegou finalmente à Madeira e provou ser essencial no combate aos incêndios, embora ainda insuficiente. Foi necessário recorrer a mecanismos europeus, trazendo assim dois Canadair espanhóis para auxiliar no combate às chamas.
Se tudo isto não fosse já grave o suficiente, há também relatos de jornalistas e do próprio Sindicato dos Jornalistas da Madeira sobre pressões e restrições, que impediram os repórteres de acederem às áreas dos incêndios para reportar o descontrolo das chamas. Curiosamente, apenas os jornalistas foram vedados, pois os populares e os meios de segurança podiam circular sem qualquer impedimento. Perante todos estes acontecimentos, Miguel Albuquerque declarou que a operação foi um sucesso porque não se perderam vidas nem casas, ignorando o facto de que uma vasta área florestal foi completamente dizimada, como se tal não tivesse qualquer importância.
Após esta flagrante demonstração de falta de respeito, arrogância e prepotência por parte do governo regional e das suas principais figuras, cabe, na minha opinião, à oposição apresentar uma moção de censura. Um governo que age desta maneira não pode continuar no poder, nem deve continuar a decidir o futuro da região. Quanto ao PAN, que tem apoiado este governo, pouco ou nada se ouviu, provavelmente devido ao receio de perder o seu lugar na Assembleia Legislativa da Madeira, dado que, em várias ocasiões, têm atuado como um partido satélite dos sociais-democratas.
Por parte do Chega, partido que sustenta este governo minoritário, há agora uma tentativa de "lavar a face" com ameaças de apresentar uma moção de censura. Isto, depois de terem traído os seus eleitores, ao dar apoio a Albuquerque e ao seu governo, quando, durante toda a campanha eleitoral, afirmaram que nunca sustentariam um governo que consideravam corrupto e incompetente.
Do lado do PS e do JPP, já foi pedida uma audição parlamentar para apurar responsabilidades. Mais uma vez, a política madeirense revela-se instável, e resta-nos apenas aguardar para ver o desenrolar desta situação.
Permitam-me, no entanto, expressar a minha opinião como madeirense e como jovem que cresceu nas serras e na natureza da Madeira. Dói-me profundamente ver o estado em que a nossa ilha ficou. O negro das cinzas nas nossas serras entristece-nos profundamente, porque sempre estivemos habituados à beleza da nossa natureza, aos seus cheiros e às vibrantes cores verdes das nossas florestas. Para mim, o governo, assim como todos os partidos que o sustentam – CDS, Iniciativa Liberal, PAN e Chega – são também culpados por esta catástrofe. Eles carregarão as cinzas desta tragédia nas suas mãos durante muitos e longos anos. Espero que os madeirenses não se esqueçam, porque eu, com muita tristeza, jamais esquecerei.