Manuel Pizarro é o Moedas do Porto?

porSérgio Aires

30 de julho 2025 - 17:04
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Entre alianças rejeitadas à esquerda, apoios tácitos à direita e figuras recicladas de outros partidos, torna-se cada vez mais difícil distinguir o que separa o PS local do velho centrão e da direita que esteve no poder nos últimos 12 anos na cidade.

Há muito que a política portuguesa vive tempos de incoerência, mas o que se passa no Porto ultrapassa os limites da desfaçatez. Manuel Pizarro, candidato do PS à Câmara Municipal e figura central do PS-Porto, vê agora o seu mandatário apoiar Carlos Moedas em Lisboa — um dos porta-vozes mais radicalizados da Direita. Obviamente, Virgílio Bento é livre de apoiar quem quiser, só não se livra é de demonstrar um gritante oportunismo político e, pelo caminho, tornar evidente que a distância entre Pizarro e a direita de Moedas, a existir, é curtinha.

Ainda mais grave é o contraste entre aquilo que o PS faz em Lisboa e o que Pizarro defende no Porto. Na capital, os socialistas aceitaram avançar com uma coligação das esquerdas, apostando na convergência progressista com partidos como o Bloco de Esquerda e o Livre (a CDU só não entrou porque não quis). Já no Porto, quando se colocou a mesma possibilidade, foi o próprio Pizarro quem recusou qualquer aliança à esquerda. Em vez disso, sempre preferiu manter o PS colado ao movimento de Rui Moreira (de quem foi coligado e Vereador com Pelouro, é bom não esquecer), ao centro-direita e à velha lógica dos interesses instalados. Se essa recusa em unir a esquerda não basta para mostrar de que lado ideológico se encontra, o apoio indireto do seu mandatário à candidatura de Direita em Lisboa, a que se somam os painéis de representantes da direita portuense nos seus ciclos de conversas, torna tudo cristalino: Pizarro não é, nem nunca foi, um candidato socialista, mesmo que seja o cabeça de lista do PS. 

A escolha de Fernando Paulo como candidato do PS ao Porto só agrava a situação. A sua trajetória é um exemplo de carreirismo político: foi vereador do PSD em Gondomar, passou por um concurso polémico para assessor na Câmara do Porto, integrou o movimento “independente” de Rui Moreira como vereador e, agora, aparece convenientemente reciclado como figura de confiança do PS. Ocupa ainda hoje o pelouro da Educação e Coesão Social — eleito numa lista que se dizia “independente” — e amanhã será um dos rostos do PS nas eleições. Um percurso sem coerência ideológica, sem transparência e sem explicações.

A questão central já não é apenas política, é ética. Que tipo de mensagem se transmite ao eleitorado quando os partidos trocam de candidatos como se fossem peças num tabuleiro e esperam que ninguém note a falta de convicção? Como pode o PS pedir o voto em nome de causas progressistas quando, na prática, age com o pragmatismo cínico e com os protagonistas da governação da direita?

O PS-Porto parece ter-se tornado um braço local de uma política feita de conveniências, esvaziada de princípios. Entre alianças rejeitadas à esquerda, apoios tácitos à direita e figuras recicladas de outros partidos, torna-se cada vez mais difícil distinguir o que separa o PS local do velho centrão e da direita que esteve no poder nos últimos 12 anos na cidade.

No meio disto tudo, há uma suposição implícita por parte destes dirigentes: a de que o povo é estúpido e não se apercebe. Que aceitamos tudo. Que não temos memória, nem exigência. Estão enganados. Quando a política se torna apenas um jogo de interesses, perde-se o respeito pelo eleitor e a confiança na democracia esboroa-se. E o resultado – que está mais do que à vista - é precisamente o contrário da justificação dada por Virgílio Bento para apoiar Moedas: ao invés de combaterem “a direita radical do Chega” fazem-lhe um favor.

Está na hora de escolher quem oferece, e sempre ofereceu, mais: mais clareza, mais coerência e, acima de tudo, mais respeito pelos eleitores e pela Democracia.

Sérgio Aires
Sobre o/a autor(a)

Sérgio Aires

Vereador do Bloco de Esquerda na Câmara do Porto. Sociólogo, consultor e perito nas áreas da pobreza, exclusão e políticas sociais.
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