Manual do Estado em caso de catástrofe: Use o salário

porTatiana Heleno

07 de fevereiro 2026 - 15:58
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Mesmo que o salário tenha chegado, chega para quem? Para quem ganha 700 euros? Para quem vive de uma reforma de 400 euros? Para quem terá de continuar a pagar renda, empréstimos, eletricidade, água mesmo sem casa habitável?

Uma parte de Portugal ruiu: telhados arrancados, paredes abertas, fábricas inundadas, ruas intransitáveis, aldeias isoladas, cidades feridas. Falta luz, água, rede, comida, descanso, segurança, falta futuro imediato… E, ainda assim, o governo pede calma.

A tempestade Kristin não foi um episódio pontual nem um azar localizado, foi devastadora. Os estragos ultrapassam largamente aquilo que qualquer família, trabalhador, pequena/média empresa ou autarquia conseguirão suportar sem apoios, mas como não aconteceu em Lisboa, não há necessidade para uma paragem nacional, não houve mobilização total do Estado, não houve urgência política, mas houve silêncio burocrático e frases ensaiadas.

Há milhares de pessoas sem telhado. Chove-lhes dentro de casa, sobre camas improvisadas, sobre documentos, sobre memórias, sobre o pouco que sobrou. Aproxima-se uma nova instabilidade meteorológica e ainda há telhas por colocar, estruturas por avaliar, bairros inteiros por reconstruir, mas fora da capital, a destruição é sempre tratada como resistência folclórica: “esta gente aguenta”.

Diz-nos o Governo que os apoios chegarão, mais lá para o final do mês. Entretanto, aconselha-se a população a recorrer ao salário. Ao salário que, segundo o Ministro da Economia, “acabou de ser recebido”.

Convém esclarecer, Senhor Ministro: a tempestade ocorreu a 28 de janeiro. Fora da função pública, a maioria dos trabalhadores recebe no final do mês. E convém esclarecer outra coisa ainda mais básica: Leiria e, sobretudo, a Marinha Grande não vivem de discursos, vivem de indústria, de pequenas e médias empresas, de produção fabril, de exportações, turnos e de mãos calejadas.

Hoje, muitas dessas fábricas estão paradas, inundadas, danificadas, sem condições de produção, sem faturação e sem capacidade de pagar salários. Milhares de trabalhadores ainda não viram o dinheiro entrar na conta, porque não há empresa funcional para o pagar e mesmo quem recebeu, recebeu centenas de euros para cobrir prejuízos de milhares. Mesmo que o salário tenha chegado, chega para quem? Para quem ganha 700 euros? Para quem vive de uma reforma de 400 euros? Para quem terá de continuar a pagar renda, empréstimos, eletricidade, água mesmo sem casa habitável? Sim, Senhor Ministro, a maioria dos portugueses não ganha mais do que isto…. É desconfortável, mas é a realidade. Como Ministro da Economia, deveria saber isto. Como Governo, não podem fingir que não sabiam.

A resposta do Estado resume-se a um formulário online. Um formulário online. Para pessoas sem eletricidade, sem internet, sem equipamentos, sem cabeça para burocracia enquanto tentam salvar a casa com as próprias mãos… Um formulário como resposta a uma catástrofe coletiva e desculpem-me, mas isto não é desorganização é desumanização.

Enquanto isso, assiste-se à imagem mais cruel de todas: trabalhadores a limparem os seus próprios locais de trabalho. Funcionários a retirar lama, vidro e destroços das fábricas onde ganham a vida, a reconstruir com o corpo aquilo que o Estado não reconstrói com meios, a segurar empresas que, daqui a uns meses por incapacidade de se reerguerem, podem muito bem “limpá-los” para fora — despedidos, descartados, entregues ao desemprego depois de terem sido úteis na emergência. É este o contrato social implícito: quando é preciso salvar o capital produtivo, os trabalhadores aparecem; quando é preciso proteger quem trabalha, o Estado desaparece.

O discurso que começa a ganhar espaço é ainda mais obsceno: “o Governo avisou”. Avisou do mau tempo. Como se avisar fosse proteger, como se alguém pudesse prevenir-se contra ventos a quase 200 km/h, como se a culpa fosse de quem vive em casas frágeis porque nunca teve alternativa melhor, em territórios esquecidos, como se a precariedade fosse uma escolha.

Quando a Ministra da Administração Interna diz a um presidente de câmara exausto que “isto é uma aprendizagem”, revela-se tudo. Aprendizagem para quem? Para quem perdeu a casa? Para quem não sabe se terá salário? Para quem dorme com baldes no chão e medo no corpo? Isto não é falta de informação é falta de empatia e mais grave: é escolha política.

A empatia não é uma qualidade opcional num Governo. É uma obrigação democrática e este Governo volta a provar que quer gerir números, gráficos e narrativas, mas não pessoas ou pelo menos não as que possam estar numa situação precária.

Até que a ajuda chegue, pede-se às pessoas que aguentem, que usem o pouco que têm, que continuem a ir aos bancos não para investir, mas para depositar salários provenientes de empregos precários destinados a pagar rendas, empréstimos, contas, já que o salário “principal” não chega para tudo, que resistam mais um mês… Sempre mais um mês.

Portugal ruiu. Não só pelos ventos, mas pela ausência de um Estado que aparece apenas quando dá jeito aparecer. Ruiu porque, mais uma vez, os mais vulneráveis foram tratados como dano colateral.

E não, isto não é inevitável, é político.

Tatiana Heleno
Sobre o/a autor(a)

Tatiana Heleno

Cardiopneumologista e Neurofisiologista. Ativista pelos direitos humanos.
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