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A manif de Ventura não vai existir

Sempre que fala da manifestação que convocou para sábado, o deputado do Chega recebe uma enxurrada de apupos dos seus próprios apoiantes.

Desta vez não são bots e perfis falsos. São mesmo os apoiantes do Chega. Quando propôs fechar a Assembleia da República ou quando condenou a manif anti-racista invocando a cautela em tempo de Covid-19, estas pessoas acharam que Ventura falava a sério. Agora são elas que o vêem “igual aos outros” ou lhe pedem que recue e desista desta vergonha.

A pressa de começar a campanha presidencial levou Ventura a lançar-se nesta “Marcha sobre Lisboa”, sete quilómetros ao sol entre o Marquês e Belém, que seria “o grande salto em frente” da “maioria silenciosa”. A ideia nasceu torta e esta retórica é cada vez mais embaraçosa para o líder do Chega. Na sexta-feira, publicou uma mensagem aos militantes, reconhecendo que é “das decisões mais arriscadas” que tomou. No domingo, já suplicava: “peço-vos que não me deixem caminhar sozinho no dia 27 de Junho”. Em poucas horas, mais de 500 comentários de apoiantes voltavam a arrasar a iniciativa. 

Ventura não irá sozinho. Ou não vai, porque cancela e #ficaemcasa, ou mantém a convocatória e lá descerá a avenida entre um punhado de ultras e alguns skinheads de peruca, eufóricos com o ajuntamento. Todos juntos talvez bastem para segurar a faixa “Portugal não é racista”, com que Ventura quer esconder o vazio da resposta do Chega à crise social realmente existente em Portugal.

Nos próximos dias, para descalçar a bota, o partido anti-ciganos vai engolir um sapo. A "Marcha sobre Lisboa" vai ser a vergonha de Ventura.

Sobre o/a autor(a)

Deputado e dirigente do Bloco de Esquerda. Jornalista.
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