“Sou do Porto, mais vivo que morto.”
— José Mário Branco, FMI (1979)
Há frases que atravessam décadas e ainda dizem tudo. A de José Mário Branco serve-nos agora. O Bloco de Esquerda, partido que aderi há 8 anos, tem tudo para estar mais vivo que morto.
Nos últimos tempos, o diagnóstico é repetido pelas demais diversas vozes: o Bloco já não tem espaço, já não tem voz, já não tem razão de ser. Uns arriscam dizer que as nossas bandeiras se esgotaram, certamente esquecem-se que ainda não atingimos a maior delas todas: o socialismo. A esquerda, dizem, deve reorganizar-se, fundir-se, diluir-se, tornar-se “moderna” e “dialogante”. Em bom português: os anticapitalistas devem deixar de incomodar. Mas o problema não é o Bloco ser incómodo — é a hegemonia da narrativa social e política estar demasiadamente habituada à comodidade.
Fizeram-nos o funeral tantas vezes que já perdemos a conta. Mas os que resistem, ainda cá estão para mais uma batalha, e outra e outra. Porque o Bloco, por muito que o queiram reduzir, ainda é dos únicos espaços políticos que não se contenta com os males menores. Nascemos dos impossíveis — de quem acreditava que a política podia servir quem trabalha, quem cuida, quem cria.
Os que nos querem ver mortos são sempre os mesmos,
Os banqueiros que vivem de lucros à conta de fome de milhares.
Os patrões que olham para o salário mínimo como se fosse esmola.
Os agressores, que querem o silêncio de quem não se pode defender.
Os negociatas da saúde, que vendem o nosso bem-estar como ativo financeiro.
Os que transformam a habitação num negócio, o ensino num privilégio, e o trabalho numa corrida sem fim.
Esses sim, querem-nos mortos — porque sabem que, vivos, somos dos seus maiores obstáculos.
Mas há também um outro perigo, mais discreto: o do cansaço.
O da rotina política, do automatismo, da disputa interna no vazio que nos faz esquecer para que servimos. O Bloco precisa de se olhar ao espelho e perceber o que ainda quer ser. Se apenas uma memória de tempos de protesto e esperança, ou uma força capaz de reinventar a esquerda para o século XXI.
Precisamos de reforçar e aprofundar os laços com o nosso povo. De disputar, ainda mais, as fábricas e aos bairros, as escolas e as plataformas digitais onde se trava hoje a nova exploração — dos estafetas sem direitos, dos técnicos precários, das cuidadoras informais que sustentam vidas inteiras sem reconhecimento.
Há quem ache que o caminho é a fusão — que devíamos dissolver-nos noutros projetos que se dizem próximos, em nome de uma “unidade” que costuma ser apenas outra forma de apagamento. Mas o Bloco nunca foi um anexo, nem um adereço. Não somos um partido de ocasião, nem um ornamento da esquerda respeitável e bem-falante que o poder tolera porque já não morde.
Somos, e devemos continuar a ser, uma organização que deve pautar pela democracia participativa, que desconfia das hierarquias e lhes faz frente, que prefere a rua ao gabinete e a batalha política à acomodação. E sim, isso incomoda — sobretudo a quem prefere uma esquerda domesticada, que se contenta em gerir o neoliberalismo com purpurinas e bicicletas.
O futuro não nos será dado. As batalhas que se avizinham — contra a financeirização da vida, contra o neoliberalismo disfarçado de inovação, contra o tecno-feudalismo das plataformas e das inteligências artificiais que exploram dados e corpos — exigem um Bloco robusto, inteligente, e socialmente enraizado. Um Bloco que fale ainda mais com quem trabalha, com quem cuida, com quem estuda e com quem vive a precariedade como condição permanente.
Defender o trabalho contra o capital, lutar pelo SNS público e universal, lutar por serviços públicos funcionais, por melhores condições de ensino, por um Estado que não abandone — tudo isso continua a ser a base da nossa existência.
Mas agora é preciso mais: precisamos de disputar o imaginário, de reconstruir a ideia de futuro, de provar que a política ainda pode servir para melhorar a vida das pessoas.
Não, não morremos.
Nem seremos um cadáver elegante à espera de fusão. Ainda estamos vivos — mais vivos que mortos — e continuamos a ser necessários. Porque enquanto houver quem viva do seu trabalho, quem recuse a injustiça como normalidade, e quem acredite que a vida não é mercadoria, haverá lugar para o Bloco.
Vamos mesmo, (re)começar de novo.