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Maioria absoluta e saúde: uma história de desamor

Uma maioria absoluta que não consegue responder às prioridades do país estava destinada a falhar no que mais importa. Mas esta foi mesmo a escolha de PS. Um ministro mestre em dissimular negociações, ao mesmo tempo que desmantela serviços. Será essa a história de desamor à saúde que deixará esta maioria absoluta.

O ainda ministro Manuel Pizarro tem-se vindo a confirmar mestre da dissimulação. O caso das negociações com os médicos foi apenas a prova finalíssima, apesar de não ser o único caso.

Na verdade, isso ajuda a perceber, desde logo, porque é que estas negociações duram há 19 meses. Gostaria de dizer que são quase 2 anos de avanços e recuos, mas o que se passou não foi nada disso. Não houve avanços. Houve um empatar de toda a situação, com o ministério a fazer-se passar por muito aberto à negociação.

A 1 de novembro, após mais uma ronda negocial, Pizarro saiu da reunião dizendo-se “francamente otimista” num acordo para dali a 2 dias, tudo estaria já em estado avançado. Escusado será dizer que a FNAM logo veio clarificar que, pelo contrário, as negociações estavam em “estado embrionário” e as reivindicações continuavam a não ter uma aproximação. Claro está, passados os 2 dias não houve acordo.

Apesar disso, a dissimulação continuou. No dia 7 de novembro, já em audições no âmbito do Orçamento do Estado para 2024, e em resposta a uma questão do Bloco de Esquerda, Pizarro dizia, com toda a segurança do mundo, que iria prosseguir a negociação com os médicos. Isto foi pelas 18h.

A segurança era tanta, ou melhor dizendo, a dissimulação era tanta, que no mesmo dia, às 21h, o ministério desmarcou todas as reuniões negociais que estavam marcadas.

Se avançarmos para dia 15 de novembro, caiu um pouco mais a máscara. Por esta altura, ao contrário do que havia dito no dia 1 do mesmo mês, Pizarro diz que o “acordo estava muito longe” de estar fechado.

15 dias foram o suficiente para Pizarro ser, por uma vez que fosse, verdadeiro no que toca a estas negociações. É claro que agora a justificação era a crise política, mas isso apenas serve para esconder aquilo que esteve à vista de todos durante 18 meses, em particular dos médicos: nunca houve, verdadeiramente, abertura para chegar próximo das reivindicações justas destes profissionais de saúde.

Isto não é forma de estar em negociações. Deixar arrastar um processo desta importância, ao mesmo tempo que se sabe os impactos nas urgências por todo o país foi uma opção deliberada. Faz parte de um processo que este ministro e o governo têm para o SNS: diminuir a sua capacidade.

Alguém poderia argumentar: mas as reivindicações dos médicos são muito caras, não há dinheiro que chegue. Discordo em absoluta desta forma de olhar para um serviço público, mas mesmo assim, não bate certo com a realidade.

A maioria absoluta do PS que tem vindo a destruir o SNS é a mesma que tem tido excedentes orçamentais de milhares de milhões de euros. O dinheiro existe, chega e sobra. Mas não há vontade política.

E isto é o ponto onde a dissimulação atinge uma maior gravidade. Sacrificar um serviço público absolutamente essencial como a saúde para mostrar boas contas na Europa é um erro brutal que vai custar muito caro ao país.

A maioria absoluta do PS está a desmantelar o SNS com uma reorganização baseada em encerramentos de serviços (que veremos se serão mesmo provisórios) e com a relutância permanente em negociar com profissionais de saúde para reter e atrair médicos, enfermeiros, técnicos, etc.

Bem pode o PS continuar a fazer discursos de amor ao Serviço Nacional de Saúde, quando na prática o está a destruir. Uma maioria absoluta que não consegue responder às prioridades do país estava destinada a falhar no que mais importa. Mas esta foi mesmo a escolha de PS. Um ministro mestre em dissimular negociações, ao mesmo tempo que desmantela serviços. Será essa a história de desamor à saúde que deixará esta maioria absoluta.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda. Licenciada em Ciências Políticas e Relações Internacionais e mestranda em Ciências Políticas
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