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Maioria absoluta e bloco central, dois caminhos para a mesma política

A maioria absoluta é a obsessão de Costa e foi com os olhos nela que recusou negociar o Orçamento e provocou eleições. Uma coisa é certa, um novo ciclo depende do reforço da Esquerda, capaz de medidas concretas para defender as pessoas, os serviços públicos e o clima.

Do Congresso do PSD não sai programa, só ambição de poder. Se o PS é "um partido de sistema", como diz Rio, o PSD é o quê? Antissistema? Achará o líder do maior partido de Direita em Portugal que o passado se apaga e que combater o "sistema" é fazer declarações desabridas contra o funcionamento da Justiça? O país lembra-se que a última reforma da Justiça feita por um governo PSD/CDS acabou em tribunais encerrados e numa confusão pegada por causa do sistema Citius.

"Afrontar poderes instalados", diz Rio. Mas que poderes são esses que o PSD se propõe enfrentar? Os negócios são, como sempre foram, o terreno do bloco central. Ou não foi o PSD que se juntou ao PS para chumbar a parte do relatório da comissão de inquérito que demonstrava os benefícios da EDP com a lei criada pelo PSD e aplicada por Manuel Pinho? Não se uniram sempre os dois partidos para manter os vistos Gold e toda a teia de regras financeiras e fiscais que protegem o privilégio em Portugal?

De que coragem fala Rui Rio, quando, sob a sua liderança, o PSD se encolheu sob a pressão do PS em piruetas impressionantes na reposição das carreiras dos professores, na descida do IVA da eletricidade e na suspensão da injeção no Novo Banco? Até na descentralização, bandeira do PSD, Rio fez um acordo com o PS que nada muda e apenas reforça o poder dos dois partidos.

Só o desgaste do Governo de António Costa permite ao PSD alimentar expectativas na amnésia das pessoas. A Direita mantém o seu projeto, o mesmo dos tempos de Passos Coelho: as mesmas privatizações que degradaram os serviços públicos e serviram as negociatas, as mesmas políticas de baixos salários e de abandono das populações. Aqui não há resposta para o SNS, nem para a habitação, muito menos para a crise climática.

Mas o desgaste da governação do PS não é ilusão. É o resultado de dois anos de jogos políticos e alianças variáveis, de uma resposta económica e social à crise feita de remendos em vez de coragem, tudo para que, no fim, nada mude. Depois de recusar um acordo com o Bloco de Esquerda em 2019 e de abrir a porta a uma aliança com o PSD em 2021, António Costa vem agora insistir na maioria absoluta. Compreende-se. O PS sabe que o bloco central é viver de favores do PSD e esperar o dia em que Rio decida deixá-lo cair. Foi assim que Passos Coelho chegou a primeiro-ministro, depois de sustentar o Governo José Sócrates e lhe aprovar o Orçamento. A maioria absoluta é a obsessão de Costa e foi com os olhos nela que recusou negociar o Orçamento e provocou eleições. Uma coisa é certa, um novo ciclo depende do reforço da Esquerda, capaz de medidas concretas para defender as pessoas, os serviços públicos e o clima. Sem esse reforço e sem esses acordos à Esquerda, haverá poder absoluto (não confundir com estabilidade) ou o pântano do centrão, e faltará SNS, salário e transição climática.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” a 21 de dezembro de 2021

Sobre o/a autor(a)

Deputada. Dirigente do Bloco de Esquerda. Economista.
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